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Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Ode à mudança ...

Nota: este texto foi publicado aqui. Hoje, acidentalmente, vi-o e reli-o. Confesso que nem me lembrava dele ... mas decidi partilhar de novo. Porque a mudança é, no fundo, no fundo, permanente em nós ...

***

Cansei-me de estar cansada de mim. De vogar em túneis permanentemente vazios, sem vozes, que não as que me acompanham vindas de dentro.

Então decidi lavrar as ondas e semear sementes - musas de palavras, planar sobre gelos, patinar sobre vermelhas águas – crivadas de dores e mágoas.

Tinha na algibeira um bloco. Procurei-o. Queria escrever nele cada andamento, cada compasso de uma melodia sem fim …

Tacteei a medo. Tinha a certeza de o ter ali. Procurei durante tanto e tanto tempo…
Finalmente encontrei.
Não passava de uma pedra de gelo e, no fogo destemperado de me encontrar, a pele em labareda o havia reduzido a um fragmento fino, um quase nada. Pouco restava. A Fada, que eu fora, havia arrefecido, perdido as asas. Esfumadas, caiam ao longo do corpo e esse, estava quase, quase morto …

Então procurei na greda, na terra por onde palmilhava. E o que encontrava eram somente poeiras… vermelhas, incandescentes. Queimavam, como escorrente soldadura, nas retinas dos olhos …

De mão descalças, abracei uma a uma, como se fossem elas, as pedras dispostas da calçada. Seguras, arrumadas… Procurava o rasto, o sulco dos teus passos. Não estavam lá…

Cansada de estar cansada, decidi que cantaria os Astros, os Planetas, as bocas abertas das gaivotas. Decidi que cantaria as aves do paraíso. Que faria do gelo bilioso um permanente gozo dos corpos retidos no recobro de repetidos abraços.

Em metáforas de poemas. Assim seria… Cantaria a Alegria.

Semeei sobre o anil das ondas a loucura impúbere de milhões de palavras.

Decidi que, e por homenagem a mim, seria palhaço, seria jogral, arlequim … cantaria uma a uma, as escamas de todos os vertebrados peixes.

Que me amamentaria dos seios de todas as orcas do Planeta.

Que seria filha da Terra e do Mar. Que exaltaria um a um, os Deuses do Panteão. Geia, Neptuno, Plutão ...

Que deixaria pegadas impressas nas abóbadas celestiais, intimas, cantos de cio e pranto.

Que ergueria triunfante a taça cálice de carne e sangue. Nas vogais abertas dos meus versos.

E que o meu riso soaria para além do rio silenciado do meu pranto.

E que os meus olhos reflectiriam os lagos de todas as cidades – aquelas que interiores, não se projectam nos espelhos dos Mares.

Hoje, desencontrada da Fada que por aqui viajava, não sei mais quem sou, mas sinto que a alegria de viver, ainda que seja dentro de um umbral de palavras, voltou.

Que os meus passos me conduzem para além das margens de um rio que, subterrâneo, habita em mim e que, em cascatas, tal corças, salta e brota.

Que fareja os sons da madrugada e que se matiza em favos de Mel, na obra de mil abelhas… obreiras de um tesouro – este reduto – onde aguilhoei as dores de estar ausente de ti. As prendi a grossos troncos, os rolei em rios rápidos e eles, floresceram, por fim …

Na certeza de que, não sendo Fada, me aceito finalmente a mim!
Poeta, louca, que seja ... mas seja, SIM!

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

"O seu a seu dono..."

“O seu a seu dono“, sempre ouvi dizer, mas, neste momento em que os valores da ética e do respeito pela “propriedade do outro”, pelo “bem do outro", pela integridade física e moral do outro, parecem não fazer mais parte da pirâmide de valores e normas de conduta dos habitantes desta aldeia global, neste momento em que a “democracia” - e perdoem-me os animais de quatro patas, por quem tenho o maior apreço e respeito -, mas dizia, em que a “democracia” parece ter chegado, ao invés do que o meu falecido pai, homem de poucas letras, mas de grande sabedoria costumava dizer “… aos burros”, começo mesmo a duvidar que quem esteja errada nisto tudo seja eu...

Eu que tão acérrima defensora sou da partilha dos saberes e que vi, nesta coisa da Blogoesfera, um "palco luminoso" onde, cada um, pudesse mostrar e aprender com os restantes …
Uma biblioteca inigualável em que aqueles que, vivendo aqui, neste cantinho "distante" da Europa seriam lidos no Japão, por exemplo; que, e usando deste modo de comunicação os não publicados em livro - os ditos consagrados -, pudessem lá chegar… e isto era, pensei ingenuamente, simplesmente maravilhoso. Escrever e ser lido e entendido a milhares de quilómetros, era uma façanha extraordinária.
E não é?’?? É, sem dúvida, mas ...

Bom, vamos lá por partes….
Ora bem, do que me dispus mesmo a falar é de roubo da propriedade intelectual de cada um de nós, bloguistas - poetas/prosadores maiores ou menores, não vem ao caso. Vulgo plágio!!!!

E se nesta altura este assunto me começa a inquietar é porque, de prática esporádica e praticada por “ladrões de galinhas”, ou seja, “larápios de frases inteiras” com que costuram mantas de retalhos, mal remendadas, diga-se de passagem, e que nada têm a ver com a arte sábia das nossas avós em costurar belíssimas mantas com sobras de tecidos, "patchwork," chamemos-lhes assim, para ser mais “in”, estes, os tais “ladrões de galinhas” são, a cada dia, mais descarados …. Agora levam as galinhas e, duvido que se lhes fosse dado a possibilidade, levariam o terreno e o milho de que as ditas se alimentaram...

Roubam a obra pronta. Para quê? Simples: para alimentarem egos doentes! Só pode…
Cada dia, confesso, (não devia, contudo...) me surpreendo mais com este mundo de “pseudo-poetas” em particular…

Ao longo deste anos em que escrevo na net, nem sempre mostrei a cara como o faço e de forma tão frontal. Sou quem sou! O rosto que se mostra é o meu, o nome é o meu, o “nick” é, como mil vezes já tentei explicar, um diminutivo…

Tempos houve em que, porque ainda não lidava bem com o facto de escrever poemas… (coisas provincianas, dirão os senhores … Concordo. Seja!), visitava blogs, comentava de forma anónima, na maioria dos casos desdobrando, continuando, os poemas dos autores que admirava … e, sorrateiramente, saia.

Desses tempos, encontro hoje na net, os meus “filhos” … mas sobre esses não tenho quaisquer direitos… fui uma má mãe que os “pariu” e os abandonou à sua sorte. Alguns, os mais felizes, vivem hoje em casas onde a poesia é respeitada e, têm como autor o Sr/Srª “Anónimo/a"… Sementes, sejam, pois, da palavra ora produzida e assinada.

Todavia, e a partir do momento em que assumi esta “compulsão” pela escrita, é-me absolutamente doloroso ver, como já vi, poemas meus descaradamente plagiados de fio a pavio, com o titulo alterado, por exemplo, e postados em blogs de “poetas fast-food”…

Sou do campo, meus senhores, detesto fast-food. Gosto de tudo o que é genuíno e verdadeiro … Não busco, não é da minha natureza, pódios ou coroas de louros… mas por favor, respeito é bonito e eu gosto … e muito. Dispenso pois as coroas de sarças com que me coroam, quando me cortam à fatia e me colam em sites onde a natureza humana não é respeitada, por exemplo!… Pior que plágio é este “descontextualizar”…

Mas serei a única vítima??? Não!
Recentemente contei a um amigo que encontrei um blog onde vários poemas dele, integrais, estavam atribuídos a outro autor… que, como vem sendo hábito nestas coisas, recebe comentários, vai a palco e agradece… e volta a palco e agradece de novo… Tristes figuras, Santo Deus!!!

E, como se a coisa não fosse suficiente… ontem à noite encontro poemas de um outro bloguista por quem tenho profunda admiração e cuja poesia é inconfundível (poemas que fazem parte de um site colectivo “desactivado”) , atribuídos agora a uma senhora, num blog actual … E, de novo digo: Tristes figuras, valha-nos quem possa…

E (tantos “e”), como a imaginação - a minha -, e o tempo, andam escassos, hoje decidi ir, - aliás como vem de há tempos a esta parte a acontecer -, à minha “caixa de perdidos e achados”, buscar um poema … “Cansada, contacto”

Pasmem, meus leitores, eu, que sou meio desorganizada, mas gosto de vos deixar o link de onde e quando publiquei cada poema pela 1ª vez, fiz “inocentemente” uma pesquisa no google (maravilhoso google), desta vez pelo nome … de imediato … zás!!! Para além da Mel de Carvalho, outra alma o “escreveu” …

Começo a estar cansada, confesso.
Será que as pessoas que andam por aqui não sabem que basta colocar uma frase entre aspas e, de imediato, se descobre onde andam os nossos trabalhos? E será ainda que não sabem o que são IP’s? E desconhecem de igual modo que, em caso de denúncia, roubo da propriedade intelectual, porque é disto que se trata, a “coisa” é feia???

… pois é! Recomendo vivamente a referência ao autor, no mínimo, ao blog/site/livro, etc., de onde se retirou o texto. Citar até dá um ar intelectual, não é verdade???Fica sempre bem!

Sim, têm razão, estou irritada, começo ter pouca paciência para estas coisas…
O seu a seu dono e ponto final.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Gotas de cristal, orvalho, prata...

Desces serena pelo beiral da minha vida, gota de chuva, gota de prata, límpida, na beleza de um puro cristal. Lágrimas soltas no alcantilado gélido da noite.
Abro os meus galhos e acolho-te...

Sou árvore, sou flor, sou pétala, que, em ressupinação te aguarda e que, da tua visita, se purifica.
Sou a semente perdida de uma margarida...

Sou da flor, uma simples micro-pétala que, nesta espera, tão infinitamente alongada, se queda, comprimida contra as margens de um rio que transborda e que tudo alaga, na lágrima salgada. Rio veloz do leito até à foz. Rápido em sentidos desmaiados, a/enunciados, em tantas e tantas palavras, recalcadas na boca, retraídas entre o palato e a língua...

Sabes gota, hoje vou viajar nas tuas asas, vou percorrer o vento suspensa no teu voo secreto. Tu, que tens a capacidade de te transformar do estado líquido ao gasoso e sob o impetuoso frio glaciar... gelar, solidificar. E, como como tu... gota serei. Solidificarei, na recta final Catedral de Gelo, tal as do Lago Superior do Canadá.

Ficarei, que eu sei, com os sentidos mordidos pelo frio. Percorrerei inóspitos lugares, periclitantes, em gélidas paredes recobertas no meu próprio gelo – que gelada se anuncia a vinda do Inverno -, procurarei ai, nesse Universo de quietude e de brancura, a Paz... a Paz que tarda.

Sim, em mim própria serei a água e o alpinista escalador de gelos.

Colocarei os piolets, camelots, crampons, eriçarei os pés em picos... extensões dos meus próprios sentidos.

Sim, não sei na verdade se usarei sequer cartas sinópticas... navegarei apenas ao sabor do sentimento... sem recurso a mais “ferramentas”... Medirei, contudo, os teus secretos ângulos, que juro até comprei um Clinómetro...

Aguçarei a arte e o engenho, na eterna procura da sensibilidade dos sentidos.
Inventarei novos trilhos, nos trilhos da sólida água – que em ti adivinho... gota.

Gota de Prata... gota de orvalho ou de cristal... a mesma, a que tomba agora rumo à boca, em correria, tão, mas tão louca, que simultânea, me beija e me afaga...

Procuro em ti, gota, como te digo, caminhos! Caminhos que me conduzam ao cume, ao cume mítico da Montanha Mágica.
Caminhos de inovação e de atrevimento.
Caminhos de protecção e discernimento... de pureza e consistência...
Gota, parede de cristal.

E te encontro, e me encontro, entre o fim da noite e o início da madrugada, nesta eterna escalada, ao epicentro de mim.
Esta escalada que me obriga a escutar, a ler o que me habita...

Muno-me de cordas e de archotes, desafio a verticalidade, procuro-te e procuro-me.
És a certeza reencontrada na palavra Saudade.

E no negrume da noite, vislumbro-te, gota, estrela a pontilhar de luz a lua, a lua negra e fugidia. És de mim o farol, a guia, o anjo que sem que me toque me transporta a este abismo que sou, dentro do meu próprio corpo: mar tumultuoso, revolto...

Oceano sem fim, onde apenas o simples brilho de uma só gota, me ilumina e me conduz, me alumia, me reconforta, me fascina.
Gota de cristal, de chuva e prata!

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Escrito em Lx. 25/X/2006, Publicado aqui

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Poderia dizer-te, palavras que nunca te direi ...

Poderia dizer-te
dos pássaros mortos que encontrei naquele dia quando abri a porta da casa fechada há alguns anos. Do dardejar de suas asas por dentro do meu peito…
Do pó que contornava cada canto, cada estrado, cada flor inanimada p’la secura. Ou ainda da água enferrujada que, ao abrir a torneira, tingiu de ocre meus dedos.
Poderia falar-te do relógio de cuco que me olhava, como dantes, por entre as duas portas das salas. Mudo, contudo. Enclausurado no escuro do seu mundo …
Do lambrim do hall de entrada feito a custo - era tão escasso o dinheiro naquela altura -, por um artista da época sobre o estuque fresco, num imitar perfeito, dos nós, dos lenhos, dos veios, de troncos de madeira. Entroncados, ombreados, uns nos outros.
A inspiração viera-lhe dos tempos em que, como estivador, viajara nos porões dos barcos, onde à chegada, descarregava em ombros o que o navio levava, pelos portos de Lisboa a Veneza …
Poderia dizer-te
de como cresci ali, naquela casa, agora abandonada; onde aprendi a ouvir os cantos de todas as aves e mais uma: domésticas, de gaiola ou até capoeira. E daquelas que me visitavam p’la manhã e p’la tardinha e trinavam só para mim, então menina, cânticos em códigos só nossos.
Quase divinos, digo-te agora.
Eram, de todas, as que mais apreciava. Respiravam liberdade e, sem que ninguém soubesse, traziam-me notícias dos que no antes de mim, haviam rumado mundos ao mundo …
Dos que os vivos, diziam que estavam mortos (não nunca em mim ...).
Só a carne, porque o que deles emanara, perdurava na matriz cristalina da minha alma … cada gesto, cada palavra… até o barulho distinto dos passos … e a todos amava. E com todos me amparava … tios velhos, vizinhos, avós e primos …
Poderia dizer-te
da companhia que me fizeram os meus bichos (e tantos eram). Os da seda, que alimentava com folhas verdes de aroeira ….
o meu ouriço-cacheiro com quem me cruzei um dia e, num ápice tresloucado, salvei da roda de carro. Depois, afaguei-lhe os espinhos, alimentei-o a pedaços de pêras, de maças, que desviava da cozinha até ao dia em que, provavelmente cansado de tanto desvelo e afago, se escapuliu sorrateiro em busca do seu destino….
Deixou-me, tal como tu, uma lágrima silenciosa… e a percepção de que na vida, tudo o que chamamos de nosso, é efémero, transitório… dura enquanto dura. Apenas isso!
Ou dos porquinhos-da-índia … mal cheirosos, eu sei. Mas tinham um pelo tão lindo e um olhar que me esquentava a alma, de um castanho melado …
ou ainda dos outros, os da pocilga, que viviam e morriam para que eu pudesse viver… transitória a sua vida, mas amava-os de igual maneira. E tratava-os se adoeciam. Por eles aprendi até a dar injecções … a eles, e às ovelhas… aos gatos e aos cães; e mais houvessem, trataria de igual maneira …
Poderia ainda falar-te
do dia em que as águas subiram e, quando acordei de manhã, na beira rio e por todo o lado, só se viam destroços do que foram vidas dos que comigo comportavam, sem comportas ou barreiras, nas aldeias lado a lado.
Do dia em que tremeu a terra, em que dos altares do céu, os deuses se exaltaram… e que, na mesinha de vidro, um peixinho de barro, tilintou-me o aviso … acreditarias, pois?
E na verdade assim foi!
A um peixe de barro a uma mesa de vidro, devo o facto de ainda estar viva …
Poderia contar-te ainda
dos dias em que o despudor dos homens retalharam no toque e no abuso a inocência do meu corpo, tomando os botões de rosa que anunciam os seios, no argumento de que eu, a criança, era a “feiticeira” …
Se consumado o acto? Não! Sabes… Deus devia estar por perto…E alguém me libertou na hora derradeira...
E desta mágoa, que até hoje perdura, do quanto me senti impura. E do nojo que sentia …de um bafo que fosse, de ver um homem a menos de meio metro… insegura, sim!
Poderia contar-te
se a pressa não fosse sempre o teu maior alimento, de como cresci por fora, de uma beleza trigueira, nesta altivez de porte, neste olhar que intimida… E resiliente a outras quaisquer emoções, que não a partilha inteira com a natureza primitiva de plantas e animais …
Em suma, poderia ter-te contado a história da minha vida até ao dia em que a força centrípeta te colocou nuclearmente no certo do meu destino. E me fez confiar, acreditando, que o amor que emergia, que tão profundamente sentia, bastaria para nós dois …
se te amava de forma desmedida, de forma incontrolada …
se te daria a chave e o cofre de todos os alfabetos. Se te sonhava acordada, e me via solta e livre, em loucas correrias por serranias e prados...
Eram os teus braços que buscava. Tão-só e apenas... sem porquês, indagações, reticências, pontos finais ...

Poderia sim…
Todavia, em certos momentos, duvido até que, aos teus ouvidos, as minhas palavras tivessem o mesmo efeito que uma missa dada nos dias de hoje, mas liturgiada em latim… abanarias a cabeça, e dirias "amen", que sim…
Assobiarias e passarias adiante … ou estou errada e me ouvirias atentamente?

Diz-me … o cansaço está, definitivamente, a tomar conta de mim!
... Fazes-me falta, preciso de ti!

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

O Sonho de Deméter

Deméter, era vizinha de Antonino, a dois passos de Antonino, quase que lhe podia sentir o cheiro a lavanda.... Também ela era tímida, reservada, até mais do que isso, aparentemente congelada. Congelada por séculos de espera e de solidão.

Aí, um dia conheceu Antonino. De mansinho, percebeu que não estava mais só. Fora o olhar dele, um olhar queixume, foram os passos baloiçantes, leves, carregados de magia e de voos prometidos, ou apenas o som de batuques ao longe, não sabia!

Sabia apenas, que deste esse dia, se havia, para sempre, consagrado a ele. E, sem que ele soubesse ainda, lhe oferecera o seu olhar em forma de poema e com ele colocara estrelas no firmamento, guias, por onde um dia, igualmente sem saber, Antonino se haveria de projectar e viajar nas palavras.

Deméter não tentou impedir-lhe o voo!

Adorava vê-lo voar, asas abertas, num voo agitado, às vezes, acalmado outras, picado, noutras... Asas abertas, sem destino obrigatório, é certo.

Mas sabia que a todas as Primaveras, Antonino voltaria.
Voltaria para sorver o seu olhar maresia, o seu olhar poema. E com ele preencher telas infinitas de um amor maior que o espaço!

Da sua janela, vira Antonino a plantar pimenteiros nos passeios e percebeu. Então queria ele que provasse o picante-escaldante da vida? O picante da Paixão? Pois seria! Antes que a polícia chegasse e arrancasse um a um os pimenteiros, pela calada da noite apanhou as malaguetas coloridas de vermelho, macerou os frutos no mais fino azeite! Com este ópio se unge e se purifica, nas horas em que, sob a lua crescente, na magia das palavras, ambos se encontram e se amam perdidamente.

Deméter conhece-se-lhe todos os trilhos, todos os atalhos e isso faz dela a mais amada das mulheres!

Sim, também ela de amada passou a abandonada. Mas só fisicamente... Vive uma vida nova, sem incertezas. Tem as suas rotinas ... e, uma delas, é a de, todas as manhãs, procurar o seu Pólo, um cão que a acompanhou durante anos, fiel, e que a ajudou a manter acesa a esperança de vir a ser, um dia, apenas gente.

Deméter voa agora, suspensa nas asas do seu Anjo!

Recorda o tempo em que as asas estavam coladas ao corpo, como que incapazes de gerar afagos... Mas Antonino passou por perto e, como que por magia, o corpo estremeceu e o milagre da vida (uma nova vida) aconteceu. Deméter renasceu em Maio! E percebeu que uma ave a voar parada pode ser uma ave morta e não quis voltar.

Diz quem viu, que hoje, no céu estrelado da noite, voam dois pares de asas, tão, mas tão fundidas, que não se sabe onde começam umas e as outras acabam.

Deméter já não tem só sonhos. Vive o sonho!!!!

Sabe que a vida que vive agora, num voo supremo, é bem melhor que sonhar, aprisionada que estava num corpo de vidro fino!

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Conto originalmente publicado aqui

Nota:
  1. Démeter
  2. Antonino (inspirado no "conceito" de vias romanas ... caminhos ..."Itinerarium Antonini")

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

No Jardim da (i)lógica

Naquela noite, o mar estava incendiado. O Menino aguardava a vinda da sua Fada, por detrás da janela, olhando-o de frente. Tanta gente, tanta gente, e, contudo sentia o seu coraçãozinho demasiado sozinho .

A sua Fada, aquela que chegava quando o dia se despia e ele vestia o pijama do avesso, tinha o condão de lhe trazer uma Paz e um bem estar de que tanto necessitava para enfrentar o frio da madrugada. Tantas perguntas, tantas questões para lhe colocar. E, contudo, pressentia que haveriam muitas, às quais ela nunca iria responder ... ou talvez sim!

Na última noite a Fada quando se despedira, havia-lhe dito:

“Descansa meu tonto... acalma esse coração ... sente o marulhar das vagas, o rebentar das ondas nas falésias, deita-te na areia, encosta o ouvido bem sobre ela... e ouvirás o respirar da Terra. Ouvirás, que lá dentro, ela, como tu, tem medos e treme, ela, como tu, sorri e chora ...

A terra vive, cresce e evolui, tal como tu, tal como as estrelas e os planetas ... tudo tem um principio e tudo cessa e, de novo tudo recomeça. Um circulo contínuo!"

Tal como a Fada lhe dissera, deitara-se de barriga na areia, colocara o ouvido atento no seu ventre e, jurou que sentira a Terra a soluçar, a tremer e a vibrar ... com tanta, tanta força que se levantara de um ápice e correra saltando de vaga em vaga, envolvendo os pés e as pernas, envolvendo os calções e a camisola de espuma ...

A Terra chorava? A Terra sofria? A Terra...

Sempre pensara que só os animais tinham sentidos (sentimentos, não era isso?). E agora concluíra que ventre da Terra, lá no fundo, tal como uma criança ainda dentro do ventre de sua mãe, a Terra, ela própria, borbulhava e fervia ...
Porque choraria a Terra?

A sua Fada não chegava ...
Olhou de novo, uma e outra vez através das cortinas do Tempo... olhos com os seu olhos cor de Terra ... E, como por Magia, como respondendo ao apelo do seu coração, a Fada vinda do Jardim dos Deuses, materializou-se, vestida das cores do arco-íris... num sorriso de Luz, na melodia de harpas e flautas ...

O quarto era agora um lugar mágico. Sem mais, sentiu o beijo sereno de que já se habituara a tombar sobre a testa, no centro do seu espaço visual, sentiu-lhe as mão que o afagavam num abraço eterno. Sorriu....

- Fada... hoje pensei que já não vinhas...

- Meu querido, virei sempre, mesmo que os teus olhos me não vejam, o teu coração e a tua Alma saberá que estive aqui...

- Mas eu quero ver-te! Quero ...

- Querido ... nem sempre aquilo que nós queremos se pode obter. O que importa é que nós tenhamos a consciência que desenvolvemos todos os esforços para o conseguirmos...

- Sabes, Fada, hoje queria falar contigo sobre o que me disseste no último dia, quando me falaste de que a Terra sofria ...

- A Terra, meu querido, é um ser vivo, e como tal, sofre as maldades que os humanos fazem com ela… o desrespeito pela Mãe Natureza, como por todas as mães do Mundo, é sentido no ventre da Terra … quando o Homem não respeita os ciclos da Vida … esgota os recursos (destrói florestas, captura espécies animais em vias de extinção, quando pesca em épocas de reprodução, etc …), meu querido, isso faz a Mãe Natureza sofrer …

- Fada… eu nunca farei nada disso … prometo!

- Eu sei, querido … descansa agora…

- Sim, descansarei … conta-me então uma história … aquela do Jardim da Ilógica … não era assim que se chamava?

- Meu querido, essa já te contei … até já contei na net …

- Na net ? ... Fada!!! Tu tens net no teu Reino?...

- Tenho sim, meu querido … escrevo histórias … lá sou só contadora de Estórias (sem H ”… e com um “E”)… A Meldemim. Apenas para ti, Karmel ...".

- Só para mim !!!! ... Fada … isso está mal escrito …. Estória ? Ehhhh eu sei que está… Histórias é com H e com um I …

- Talvez meu querido … mas estas são de uma Fada para o seu menino, são Estórias (I)Lógicas … ora ouve então:

"Uma Rosa & Um Sapo"

“Era uma vez um sapo que vivia no Jardim do Éden. Tinha sido vítima de um feitiço, e por isso continuava ali, camuflado entre a folhagem verde, esperando o dia em que ela (a folhagem, claro) se transforma-se, amarelece-se e, assim ele, o Sapo, se pudesse revelar. Era um belo sapo... O tempo passava, sem que o Outono chegasse, o verde exuberante matizava a Primavera e perpetuava-se no Verão …

O Jardim, resplandecia em todo o seu vigor. Túlipas, dálias, amores-perfeitos … e rosas! Milhões de matizes e um Sapo, verde …


Assim decorria o tempo. Lento … O Sapo desanimava… Mas, vá-se lá saber porquê, durante a longa espera ...o Sapo apaixonou-se (coisas de animais) por uma Rosa do Jardim do Éden. Era uma rosa-espinhuda, uma rosa solitária. Vivia suspensa numa roseira mesmo na beirinha do lago habitado pelo Sapo … Gerou-se entre eles uma química (sabes o que é química, querido?... atracção, partilha de emoções ...sim, eu já te disse que no Jardim da (I)lógica tudo é possível ...e, não te esqueças, era ai que ambos viviam ...).

Se a Rosa o amava? Dizem que sim... Mas a rosa tinha espinhos, o sapo escorregava... Se algum dia o caso se resolveu?...

Espera, tenho sono... Pensando bem, talvez ta conte noutro dia.
Dorme agora, dorme bem, meu Pequeno Príncipe... chove lá fora, torrencialmente... Ou será dos olhos meus?
Dorme agora, Príncipezinho ...


E dizendo isto, aninhou-lhe a roupa, acariciou-lhe os cabelos, depositou-lhe ao de leve um beijo e partiu. Levava no olhar um estranho brilho ...
Seria que o seu pequeno príncipe alguma vez descobriria quem era a "Rosa"? ...

Para além do Infinito está agora a Fada Karmel ... escreve na Net uma outra Estória ... sobre Cães e Pessoas-Cães. A que irá no próximo fim de dia contar ao seu menino ...

___***___

Era assim... faz algum tempo, quando a Mel escrevia em O Melhor de Meldemim, Feiticeira (rsrrs)

Domingo, 7 de Junho de 2009

"in Pulsos..." nossos ...

Aconteceu ontem, ao fim da tarde. Lisboa, Campo Grande 56...

Ali, entre um auditório cheio de amigos de vários quadrantes, Cleo deu à luz o seu filho literário primogénito. A mim coube-me a muito honrosa tarefa de o "amparar" com as minhas próprias palavras.

E, porque o fiz com muitíssimo prazer e grande amizade, aqui vos deixo esta nota, caríssimos leitores e o esboço de que me socorri para o momento ...
***

.... Em primeiro lugar cabe-me agradecer veementemente o convite que a Cleo (Lurdes Dias), me fez para, neste dia especial para todos nós, seus amigos e companheiros de palavras e, muito em particular para ela (o Lançamento do seu primeiro livro), estar aqui a seu lado e não ai, na plateia, onde certamente estaria de igual modo...

De seguida, agradecer a todos vós, a presença. E, claro, e não menos importante, à Editora por ter convencido, sublinho… convencido a Cleo a sair da tela e dar-nos o prazer de a ler num qualquer lugar …

O livro é e será sempre um dos principais canais de aproximação entre o autor e o leitor… sem esquecer que ainda existem muitas e muitas pessoas que não dominam as novas tecnologias …

Posto isto, apenas uma pequena nota pessoal, e, de imediato passarei ao “busílis da questão” que é como quem diz… falar da Cleo e da sua obra…

A tal nota: A Mel (eu) e a Cleo (ela), cruzaram-se um dia no blogoesfera…
tinham outros nicks, como é natural nestas coisas...

A Cleo, Medusa … quanto a mim….Sorry … esqueci… e, em rigor também pouco importa, na medida que é da Cleo que hoje queremos saber.

Apenas fica o registo e o sublinhar que, se hoje a Mel tem poemas em várias Antologias, livros publicados, mais de mil poemas registados, etc... deve-o, em boa parte a esta amiga, que, desde o primeiro instante a impulsionou a publicar… a aderir a sites…

E destas coisas se fazem amizades,
e destas coisas e nestas coisas se definem as pessoas …
cumplicidades, partilhas, valorização do outro, generosidade.
Coisas tão inversas a mesquinhez e a invejas pequeninas…

Eis pois, em traços largos aquilo que ao longo destes cerca de três anos encontrei na Cleo… no seu carácter, no seu modo de estar e de ser ...

Repito, sintetizando: Desprendimento, generosidade, simplicidade …

Agora então o tal “busílis da questão” … Falar da escrita da Cleo.

Agora, meus amigos, companheiros de e nas palavras… é aqui que - usando uma expressão popular - , perdoem-me “a porca troce o rabo, se rabicha não for” … podem rir, eu “autorizo”, não esqueçam pois que, tanto a Cleo, como eu mesma, somos de aldeias e/ou crescemos em aldeias… e lá e por lá a sabedoria popular impera …

Pois é… Lamento... mas pouco ou nada há a dizer sobre a escrita da Cleo…

Ou melhor… eu, a tal "prolixa Mel", não tenho, não encontro, palavras melhores para classificar, definir, catalogar a escrita da Cleo, se não as suas próprias…

Ora permitam-me então que a leia, em prosa:

“Simplicidade das palavras” … pág. 15 …

“Hoje alimento-me das palavras, a maior parte delas, encontro-as escritas, nos mais variados sítios por onde me passeio nos fins de tarde dos dias mais ou menos vazios... ou pelas madrugadas fora, na ausência das horas que me controlam, mas que por um qualquer motivo, ficaram presas no relógio pendurado naquela parede branca atrás de mim e para onde nem sequer olho...
Palavras escritas, faladas ou ouvidas, são palavras que definem sentimentos. Podem confortar, alegrar, dar esperança ou tirá-la… podem excitar, insinuar, esconder ou mentir. São apenas palavras…
Algumas dessas palavras são tão belas, que me recuso a colhê-las para mim, deixo-as ficar no mesmo sítio, para que possam ser admiradas por todos os olhos que as encontrem também. Outras são demasiado caras, sempre o foram e só com um dicionário por perto, as conseguiria alcançar, mesmo não sabendo muito bem o que fazer com elas... por isso nem sequer lhes tento chegar perto. Outras ainda, são demasiado floreadas e engenhosamente complicadas de modo que de nada me serviriam também, por isso, deixo-as para os entendidos. Há ainda aquelas, que me acenam com sorrisos, mas são demasiado oferecidas, não as levo, deixo-as ali, para que outros se sirvam...
Há também aquelas que magoam, que me ferem os sentimentos e me entristecem profundamente… não as quero, não as desejo nem as ofereço a ninguém. São horríveis!
Sou esquisita, só gosto daquelas outras mais simples, que me enchem o olho logo no primeiro encontro e é dessas mesmo que me alimento e as devoro logo ali, naquele preciso momento.
Hum... que delicioso banquete este, de palavras suculentas e cheias de vitaminas, que me satisfazem e me dão um novo alento. Mas as palavras não são tudo..."


Não, de todo não, caríssimos senhores aqui presentes. As palavras são importantes, em certos casos determinantes, mas não são tudo.

Mas das de Cleo dizem
tudo ... (ou quase tudo dito)…

A prosa de Cleo é uma limpa, clara, sem subterfúgios, sem pedantismos, e porque assim é, chega-nos ao mais profundo de cada um de nós, provocando reflexão… provocando vontade de retornar ao ponto de partida e reler…

.... (desde sempre lhe disse que era fã da sua prosa … )

E quando a lemos num outro registo? Como se expressa, como se manifesta, Cleo em poesia?

De novo … nada a dizer: A Cleo deixa que a sua escrita fale mais alto e nos cale para que a possamos, atentamente, escutar:

Atrevo-me a lê-la …
(perdoa, Cleo, mas sou amadora nestas lides …)

“Divagações sob uma folha branca …” – pág. 42

Soubera eu
Ser poeta
Ou poetisa
Como também se diz

E não me desolaria tanto
Com o branco
Desta folha nua...

Talvez escrevesse sonhos
Desejos
Magias
Segredos
Ou degredos
Que por vezes
Me povoam
Os pensamentos
E me adornam os dias
Até os mais cinzentos

Porém...
Não sou capaz!

A poesia
É dos que a transpiram
Que a fazem sua
Nas madrugadas claras
E caladas
Sejam Verões quentes
Ou Invernos chuvosos e frios
Não importa muito...
O que importa sim
É o acto em si
Em que o poeta e sua amante
Se embrenham um no outro
E se entranham
Consumando aquilo que alguns apontam
Como um acto ilícito
Mas que importa isso?!
Se eles o fazem
Ali mesmo
Sem pejo
Nem preconceitos
Sem testemunhas
Que os incriminem!...

Não...!
Desenganem-se aqueles
Que a pensam sua
Só porque a roubaram dos outros
Os desacautelados
Que a deixaram ao abandono
Num qualquer algures
Mas que a reconhecem de imediato
Mesmo que vestida de outra cor
Que não aquela com que a deixaram
E que a sabem sua
Para todo o sempre
Esteja ela onde estiver!

Mas também não é daqueles
Que a desprezam
Com crueza
Com frieza
E arrogância
Logo após a serventia
Qual prostituta barata
Da antiga rua direita
Da cidade de Coimbra...

E com tudo isto
Só agora reparei
Que me enrolei
No fio da meada
Que me trouxe até aqui

Foi já tanto
O quanto divaguei
Que me esqueci
E já não sei
Ao que realmente vim!

Ah! Já sei!
Dizia eu...
Que talvez escrevesse sonhos
Desejos
Magias
Segredos
Ou degredos
Mas porque será que não consigo
Derramar nesta simples folha
Tudo isso?!
Fogem-me as letras
Das palavras doces
E fico sem saber
Como as escrever...
Por isso
Fico-me com a raiva
Presa ao que não escrevo
E ao azedo
Do arroto que me saiu sem querer

E fito a folha
Que me sorri com desdém
E que continua aqui
Bem diante de mim
Assim... despida...
Sem vergonha
Nem culpa
Visto que essa
Essa...
É só minha!"

Por fim, e para não vos cansar, vejamos este outro poema, partindo do seguinte questionamento:

O que faz a Cleo com as “horas que lhe sobram”?
… sobrarão muitas horas a quem trabalha, a quem é mãe, a quem é mulher? … À partida não …
digo eu ...

Todavia

deixo-vos a resposta de quem sabe que o tempo tem um tempo de ser tempo e que, o que deixamos escrito perdura muito para além de nós, perdura ad eternum…

“Nas Horas que me Sobram” …. Pág. 28 …

Nas horas que me sobram
Dos dias que me fogem
Procuro o que me escapa
Nas entrelinhas do que escrevo...

São pequenos detalhes
Das coisas que não vejo
Mas que pressinto...
Estão lá
Em cada vírgula que não meto
Em cada ponto final que não uso
Até nas interrogações que por vezes me faço
Nas afirmações que admito
E nas reticências que me denunciam...

É este o meu livro
De matéria virtual
Que escrevo em tela negra
Sem festa nem pompa...
À mercê de um qualquer vírus
Que o apague dos registos
Ou o leve sem destino...

Não me importo
Escreverei outro
Tenho tempo...

Até que alguém se lembre
De me obrigar a parar!"
***

Posto isto, palavras minhas para quê, meus amigos?

As da Cleo são, indubitavelmente mais fortes, mais reveladoras, da sua obra e da sua pessoa…

E, tal como dizia Alçada Batista que, infelizmente não está mais entre nós, “melhor que qualquer biografia ou até autobiografia, a obra do autor…”

Partilho o pleno desta afirmação. In pulsos, em formato livro, fala sem necessidade de imagens ou sons (a que a nossa Cleo se socorre nos seus blogs e que lhe conferem uma tónica muito própria, sem dúvida...). In pulsos em formato papel, basta-se a si, pela força da palavra.

In Pulsos é, em suma, e no meu entender, uma obra vestida de uma enorme e genuína simplicidade, quer linguística quer estrutural, e, por essa razão, muitíssimo bela.

Bem-hajas Cleo por nos teres dado este presente!

***
Foto: "roubada ao bloguista "Rouxinol do Pomar"... Obrigada Sr. Rouxinol ...

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

"Quem acrescenta um ponto" ...

Foi com imenso prazer que recebi o convite por parte da Esc. Sec. Avelar Brotero (Coimbra), no sentido de integrar a Antologia "Quem Acrescenta um Ponto" (um projecto que pretendiam levar a cabo e que reuniria trabalhos dos seus alunos e de alguns autores que estes haviam encontrado na net e que apreciavam).

A escolha foi totalmente da responsabilidade dos mesmos, sendo a única condição que coloquei, a de que, os "contosdemulheres" não fossem usados dado que, espero seja o meu próximo livro.

Projecto concluído, "Quem Acrescenta um Ponto" é uma obra que honra a juventude envolvida e me honra particularmente pela escolha do texto ... um texto alusivo à terceira idade.

"Marcos Falos", aqui publicado, é então a selecção dos alunos e da Escola.

Resta-me agradecer publicamente e desejar-vos, jovens escritores e corpo docente envolvido, e claro à Temas Originais (editora) muitos e muitos projectos similares.

A Mel estará sempre disposta a ceder trabalhos.
Por causas destas e, em especial, por causas sociais. Não hesitem em contactar-me.

Contém sempre com o meu apoio incondicional.

Grata
Mel



Sábado, 23 de Maio de 2009

A montanha aguarda-nos

Varro a noite em gestos baços na procura breve de já ser dia.
Aspiro do pomar ao lado o aroma perene de maçãs, de laranjas, de romãs.

A lavra recente solta para o ar o bafo da terra quente.
A nogueira eleva braços ao ar, agita-se em ansiedade humilde de te abraçar. Um fruto cai, é noz aberta, casco de barco, em busca do aconchego decifrado do teu mar.
Noz quebrada, rebola no negro da noite e encontra o gelo do alcatrão da estrada.

Abro as portadas, afasto as rendas das cortinas, desembacio janelas.
Atento com mil cautelas no peso dos passos cansados dos guardadores de sonhos e de gado.
A montanha aguarda-os.

A montanha aguarda-nos, pastores de longa jornada.
É prato lauto, d’erva tenra, macia, aspergida - é cidadela fortificada na unidade da vida.
Bebe-nos a essência, roubando, no desafio de comum medo, em recato e desejo segredado, um a um, lentamente, devagar, todos os beijos demorados no cetim do nosso olhar.
O Sol pesponta, tímido garoto. Tremeluzente solta os cabelos revoltos p’los montes. Ao longe e logo aqui, a fraga secular refulge evidente na pigmentação d’azeviche.

Desacatamos ventos, impomos ao tempo um tempo recluso de ternura e de acalmia.
Cinjos, unos, voamos d’asas fincadas na proa das madrugadas, por sobre vales, mares maiores, rios e fontes. Seguimos a rotas das ondas, a quentura das correntes,
sem promessas,
sem bússolas, ou sextantes,
sem guias que não sejam o rasto de comum memória.

Estrelas mareantes, dizemos amor na forma pura. Dizemos amor em leitos vastos e abertos. Em estrados aplanados de crença e de candura. No sal da pele, d’alvoroços acordados.

Enrodilhada na cadeira de baloiço oiço agora o sino d’aldeia, os zumbidos das obreiras, o bulício da colmeia.

E na manhã das horas tu chegas e escreves na tua ausência
o memorial da nossa história.
Chove. Chove agora.
***

Texto anteriormente publicado aqui

Sábado, 9 de Maio de 2009

“Correspondência ao rio…”

Alhandra, Longitude: 9° 0' 0" West Latitude: 38° 55' 0"

Sobre o muro que a separava à distância de cinco andares do chão abaixo, comprimia as mãos. O parapeito amparava-lhe a eventual queda, separava-a do vazio. Como que para se prensar imprimia força contra o rebordo áspero e estreito. Sentiu dor. Ainda sentia dor…
Na memória a conversa da noite anterior:

“Sabes mamã - dizia-lhe -, o pregador naquele dia em que o encontrei ali em baixo na borda rio, falou-me do seguinte modo:
- quando tu tens trabalhos duros a pele de tuas mãos fica, dia a dia, mais áspera, mais grossa, gretada até, mas mais insensibilizada, ao ponto de, se nalgum dia decidires hipoteticamente andar de palmas de mãos no chão, de pés para o ar, seres capaz de, sem dor, o fazer, tal a dureza com que as intempéries da vida te calejaram. Assim é, meu jovem, com os males do coração, da alma. Aqueles que te não matam, mas que, porque os não esperaste, não te acautelaste para eles, te cortam a pele também te tornam menos sensível. Contudo mais preparado para os que dai por diante possam vir. E, podes acreditar que muitos outros virão. E, doravante sentir-te-ás mais insensível. Isso é bom ou mão? Depende do ponto de vista …

Tornares-te menos humano, menos crente na espécie humana é o que desejas? … Nisso reside a tua escolha. Partamos do pressuposto de que não te queres insensibilizar: só há uma maneira de conservares a pele do teu coração saudável, jovem rapaz… e essa é a fé, a convicção de que aqueles que te magoaram o fizeram porque, eles próprios foram calejados pela rijeza da sua própria vida. E, sendo assim, só em ti está, porque conheces a mensagem, quebrar esta cadeia de ressentimentos capazes de tornar o ser humano desumanizado, se assim se pode dizer…”

Rosário comprimiu de novo as mãos. O tirolês do revestimento penetrava-as quase ao ponto de sangrarem. Os nódulos tornavam-se escuros ao mesmo tempo que as palmas e as costas das mesmas empalideciam …Olhou-as. Bem tratadas, o verniz neutro, as unhas curtas. Dois anéis de algum valor. Subiu o olhar. Os braços não musculados, a pele lisa e ainda sem cor de Verão… A penugem fina a reluzir aos últimos raios de Sol daquela tarde. Conclui: Bom trato. As suas mãos, os seus braços, não conheciam a dureza das tarefas árduas…

À sua direita, sobre a serra, o monumento às Linhas de Torres (o boneco do forte, como na vila lhe chamavam). Os pinheiros. O casario novo no sopé do monte e ao redor de onde se encontrava. De frente o rio… Dali, daquele promontório, a distância era mínima. O caminho de ferro bordejava margens, a auto-estrada do norte fazia uma curva sinuosa aproximando todos os caminhos (os percorridos e os outros) e a fé. ...

A fé … Erguia-se altiva a Igreja Matriz. Branca. Nas Lezírias a outra, a da Senhora de Alcamé. Aquelas eram as suas realidades. E as restantes? Ficção? Uma mescla copiosa de que nem sempre (ou quase nunca) se desligava. Por vezes os lugares comuns, talvez por deles precisar, melancólica, ao ler sinais outros da vera realidade, de realidade inapelável… Sem apelo, apelava-se a si mesma no misticismo dos lugares onde se acolhia em reflexão: o seu rio, as vistas latas onde o prodígio da alma humana não encontrava grades…

De novo a janela das suas memórias se entreabria. Uma leve brisa percorria-lhe a penugem do corpo mordendo-lhe os poros. Abraçou-se. As últimas horas. A alma retalhada, a dificuldade de se desligar definitivamente de quem, amiúde, sem pejo, a vilipendiava. A procura constante de ver para além do mediado, de procurar em cada um dos que a rodeavam o seu melhor, certa de que, se o fizesse estaria a encontrar o melhor de si mesma…

A aragem acossava agora mais forte as copas dos pinheiros. Lá dentro Martinha nos seus sete meses chamava por ela, pelos seus afagos. Uma vida ainda de pele lisa … “La Vie et Belle”, pensou …
No aeródromo um ultraleve içava-se perigosamente da terra batida (não a via, mas sabia-a assim. Batida. Vermelha. “Não temos de ver tudo para saber que existe…”, considerou.). Acompanhou o voo. O pequeno aparelho metálico içava-se rapidamente, tomava altura, num abanar de asas, desenhava sobre o azul do rio arriscadas piruetas. Estabilizava. Depois repetia a façanha uma e outra vez. O risco. A coragem, a vontade de ver mais alto e mais perto …
Abriu os braços. A imagem do Titanic, dos dois amantes na proa do barco… Como se lá estivesse em seu lugar …

“…mamã, já algum dia sentiste a tua pele a ficar insensível? Já alguma vez te magoaram tanto que desejaste não sentir mais nada?…”

Sorriu-lhe. Olhou-o dentro dos seus olhos castanho mel. O seu filho… Um homem a quem a vida não se cansava de pregar partidas e a quem sempre tentara passar a mensagem de que o melhor da vida são os afectos. Os amigos, a família. A quem tentara passar a mensagem de não julgar pelas aparências, de aceitar a diferença, de não sentenciar sem provas. O benefício da dúvida… sempre.
Questionava-se agora sobre o trabalho feito. Márcio tornara-se num jovem de valores, era certo, mas não menos certo, frágil. E, porque frágil, imprecatado para a dureza e crueldade duma sociedade estigmatizante e redutora. Piercings, raztas… “uns galdérios…”.

Sentiu o rio a subir-lhe pelas veias. Aflorar-lhe os olhos numa tempestade de dor. Não, não eram lágrimas salgadas aquelas que sentia descendo o rosto. Eram de uma nova espécie só sua: lágrimas de rio. Doces. Percorriam distâncias em nome de todos os seus amores, naquela janela virada ao Tejo. Espraiada, sentiu necessidade absoluta de não perder de vista a razão nuclear das coisas. De não gastar todas as energias escassas em prodígios ficcionais. A realidade, a sua realidade, apelava-a a dar respostas concretas de forma constante.

De novo os sons de dentro. Martinha clamava os seus braços suscitando-lhe o ininterrupto de novas e sempre renovadas reflexões…

Despediu-se do terraço, do último sol da tarde, das linhas paralelas, das piruetas circunstanciais do ultraleve. Por fim, a norte, do monumento das Linhas de Torres…

Esfriava. Entrou na sala tomou Martinha em colo, sentiu o cheiro da sua pele de bebé e abençoou a vida, sentiu-se viva, fortalecida, revigorada …

“…mamã, já algum dia sentiste a tua pele a ficar insensível? Já alguma vez te magoaram tanto que desejaste não sentir mais nada?…” repetia-lhe a voz de dentro, como eco.

E o eco abrigou-a da própria resposta… Essa, enviá-la-ia ao rio em correspondência póstuma… por ora viveria sem medo de sofrer…


Domingo, 26 de Abril de 2009

As escadas da distância

Dizem que pouco mais tinha de dois anos quando meus pais vieram para este bairro. Duas moradias: a nossa, própria, de R/C e quintal e a que eles já habitavam, tomada de renda, aos “Gaibéus” assim chamados por serem da zona de Viseu.

Não éramos do bairro, esse de construção recente, de casas exíguas e igualmente ocupadas a renda por trabalhadores das industrias próximas. Cada um de seu canto, originários. Nós éramos os “vizinhos das moradias”, algo que nos distanciava ligeiramente dos demais. Por comodidade, com o decorrer dos tempos a nossa rua que findava exactamente na casa dos “Gaibéus”, a Rua das Amendoeiras, passou a findar no início da rampa que nos distanciava dos demais: cerca de 100 metros de terra batida, hoje alcatroada, e, a fazer jus ao nome, ladeada de amendoeiras. Oliveiras, também, mas não era destas a rua. Rua das Amendoeiras, portanto. E, por comodidade também, passamos a ser "bairro" … Afinal apenas o tamanho das casas e pouco mais nos distanciava dos restantes. Nem água, nem esgotos, sequer energia eléctrica. O rio como janela e os contrafortes dos montes.

Não me recordo obviamente de aqui ter chegado. Nem do tempo em que as nossas duas casas tinham fossas assépticas e não esgotos. Como não me recordo de, entre elas, nem sequer haver qualquer muro (viria a ser construído mais tarde, a delimitar as extremas, mas com pouco mais de um metro de altura e que nunca nos impediu de dois dedos de conversa, ou, no meu caso, de o saltar em dois tempos, abreviando o incómodo de ir ao redor dos muros ...). Como dizia, não não me recordo de muitas coisas naturalmente desses tempos, mas, curiosamente, tenho uma vaga memória de descer e subir aquelas escadas de forma estranha. Falo das escadas empinadas, de degraus estreitos. Escadas enormes, que, pelas traseiras acediam ao 1º andar onde eles moravam. Única e exclusiva forma de lá chegar. As duas moradias, a nossa e a deles, feitas pela mesma planta, dispunham-se de igual forma. As traseiras davam acesso à cozinha e aos quintais. No caso deles, escadas exteriores e os quintais. Corredores de acesso laterais. E por ai se uniam.

Recordo-me pois de, sentada, com o rabo nos degraus, descer lentamente e sempre a medo, um abismo de altura. De os ouvir lá do alto: "Melinha, vai devagar, Melinha, tem cuidado … ai Melinha …" (era Melinha e sempre fui, até hoje, para todos os meus vizinhos…).

Recordo-me igualmente de, sorrateiramente, me escapar à vigilância de minha mãe ou de minha avó e, agarrada, ou melhor, amparada, à parede da casa, passinho a passinho, subir até lá, num medo grande, grande… e, não raras vezes, a meio ouvir a minha mãe aflita:
"Melinha, sobe com cuidado, ai valha-me nossa Senhora…". E continuar a subir.

Lá em cima estavam vários homens e mulheres, todos novos. Comiam sopa de feijão com um fio de vinagre (coisa estranha), riam muito… E estava a certeza de saltar de colo em colo, de braço e braço. Eu, nos meus pouco mais de dois anos, um pedacinho de carne com duas safiras nos olhos e cabelos de palha, a rir das cócegas que me faziam… Não tinha mais vizinhos. Só eles. Este relato de factos, ouvido enésimas vezes das suas bocas, sempre que alguém lembrava esses tempos acabou por ser uma memória quase quadro em minha mente... Vivida e escutada, passada de boca em boca - "A nossa Melinha ..."

Mais tarde, muito mais tarde, percebi que eram um casal e respectivamente e a pares, irmão e irmã de cada um e ainda um amigo. Por vezes, temporariamente, mais uma prima ou outra. Todos vindos da zona da Figueira da Foz procurar melhor vida. A fábrica que os acolheu também era aquela em que trabalhavam os “Gaibéus”. Feliz coincidência que os colocou na vivenda ao lado da minha. O casal ficou até hoje, nos seus mais de setenta anos. Diziam que nunca voltariam às origens. Convenci-me que assim seria...

Passaram quarenta e seis anos. E entre risos e choros e sopas de feijão e couves galegas e confidências e condolências, sempre vivemos juntos. Lado a lado. Sem uma única discussão, sem uma má palavra. Presença contínua (o casamento colocou-me ao nível deles, dado que a minha moradia foi ampliada por essa altura). O R/C da moradia dos "Gaibéus" teve um sem número de inquilinos e desses não se rezam histórias ...

Partiram hoje com destino à sua terra de origem. Definitivamente. As escadas que tantas e tantas vezes subi a medo ditaram o fim da nossa vizinhança.

No meio de um lago de emoções, a minha vizinha soltou: “Melinha, as escadas… não as poderíamos subir por muito tempo, tu sabes como são difíceis e perigosas…”
Sei. Sei sim…

Há pouco, quando voltei ao andar de baixo, desabitado desde a morte de meu pai detive-me a olhá-las e amaldiçoei-as pela primeira vez…

Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Orient Express ou Francisca

“…É impossível ficar sem nenhum amor, mesmo que só
existam as palavras, o amor vive-se na mesma…”
Marguerite Duras, A vida material

Era daqueles dias em que se questionava sobre o sentido do seu voo e nisso não residia novidade. Sentia-se absurdamente constrangida. Absurdamente solitária. Desamparada seria o termo mais correcto. Como os álamos que despidos se enroupavam agora de novas folhagens. As asas, as que um dia jurara que lhe nasceram, pesavam-lhe agora toneladas, presa que estava ainda ao chão de suas palavras.
Reluzia nos seus tons cinzentos. Metálico. Entrou. Largou o casaco no banco de trás, não sem antes o dobrar meticulosamente. Sentou-se, colocou o cinto, ligou o telemóvel em alta voz, ajustou o volume da rádio. Antena 2. Ouvia invariavelmente a Antena 2.
Maquinalmente desenhou o percurso. As paragens, os afazeres. Logísticas e trivialidades. Em primeiro lugar, a recolha das roupas na lavandaria. A ida ao sapateiro de seguida. O supermercado ao lado esquerdo, próxima paragem. Olhou os montes à direita e o rio por detrás dos pavilhões industriais que alojavam um sem número de actividades comerciais. De repente, os tinteiros. Não podia esquecer de providenciar novos tinteiros para a impressora…
Dois anos. Dois anos que diariamente fazia aquele percurso sempre sozinha. A solidão era-lhe, dependendo do seu estado anímico, um bem ou o seu inverso. Naquele dia estava neutra. Reflexiva, contudo. O tempo passava num somatório de viagens entre o ontem e o agora. Sucediam-se as estações como nas linhas do caminho de ferro que avistava a bordejar o rio. Similitudes em que não podia deixar de pensar.
A Primavera já se fazia sentir em colorações bastas e na sua pele. Coupe rose…. Nada lhe faltava, reconsiderou. Nada. Absolutamente nada. Até aquela “maravilha” de florir com a Primavera o destino lhe reservara. Como adolescente. Sorriu. De si, das ideias estapafúrdias que, a “des” e a propósito lhe varriam as têmporas em latejos febris. Como bruma seca provinda do deserto e que varria a Ilha do Sal, em Cabo Verde. Assim agora. Por momentos, tudo se toldava. Depois o pó assentava e a calma das coisas certas voltava ao seu lugar.
Ouvia agora a rádio. “Baile de Máscaras”… Fazia tempo que arrancara a sua. Não dos outros, mas de si mesma. Que se enfrentara nas suas fragilidades e nas suas mais cruas certezas. E, se certezas havia, eram as de que o amava.
“Querida … há tantas formas de amor…”
Amá-lo-ia para sempre. Não sabia ser de outra forma e, no rigor desta constatação, sabia claramente que não desejava que fosse de forma diferente.
“Tinha saudades suas, sabia?..."
Imaginava. Também tinha dele. Muitas. De rir das suas loucuras, de o provocar vagamente, de lhe atiçar os instintos. De sentir a adrenalina do proibido, do oculto. Do que não devia acontecer. De…
Retorquiu:
“Sabe há quantos dias não me ligava?”…
Riam. Pouco importava o tempo. Bastava que a ligação se estabelecesse para que ambos em sintonia soubessem que as suas vidas estavam cruzadas irremediavelmente. Como meninos corriam as cortinas ao tempo, tomavam de assalto as locomotivas carregadas de bens raros e, mutuamente, se presenteavam: Amavam-se nas palavras. Esbatiam-se distâncias. Da Bizâncio antiga à moderna Istambul. Constantinopla no entretanto. E Sophia pelo caminho.… Vinham de longe. Viajam no Expresso do Oriente. Paris ali tão perto … E o Danúbio. E a Floresta Negra dos dias escuros …
“Conhece o Danúbio, querida?… Gosto da Europa Antiga!…”
Viajavam as rotas da ternura e da seda. E da sede de beber os dias claros. Dançar a valsa azul dos dias claros... “Danúbio Azul”. A obra-prima de Strauss estreada num baile de Carnaval, tocava agora na rádio …
As máscaras... Os percursos. Os passos sincopados. Os pares alinhados em linhas paralelas. E depois a dança. Em braços …
Porém, inversamente ao Expresso, que tantas e tantas vezes vira as suas rotas alteradas por questões logísticas ou políticas, ambos sabiam que era demasiado tarde para alterarem as suas…

Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

Carreiros de formigas

Sentou-se na beira da pedra. No caminho da pedra. No silêncio da pedra. A Páscoa ao lado, a quatro dias. As férias da escola - apenas reuniões a retinham. A aldeia em espera. Os sargaços, as sarças que lhe trilhavam os fatos, os enxames das abelhas… O povo. A sua aldeia. O umbigo de Vénus onde se sentia una. Integra. Integrada na ruralidade que a serenava. Ali na cidade não era o seu lugar.

De manhã quando entrara no carro não pudera deixar de pensar. Desde o Carnaval que não se falavam. Como se o a época pascoal impusesse o afastamento das almas afins. Como se a quarentena fosse além do culto cristão … E, contudo, prevalecia o azul no rio em frente, o sol descaía mole na Lezíria todas as tardes. As andorinhas no seu beiral já haviam gerado filhos, enchiam-lhe o chão de porcaria… Amava-as, da mesma forma: os pássaros e as crianças eram esperança. De quando em vez as bolas batiam contra as vidraças. Estilhaçavam vidros sempre baços. Os donos acorriam em fúrias e logo a benevolência da vizinhança repunha a ordem nos cacos e nos gonzos onde, despidas de vidro, as janelas permaneciam… Até um dia! Aquele em que nada mais restaria...

Sentou-se. Aconchegou-se em si. Nos seus próprios braços e a braços com o mundo. Abraçou com um olhar a dinâmica de gerações que, no parque em frente, alheias à tempestade, ao tremor da terra, aos sismos de Àquila, à devastação da argamassa e da pedra, dos ferros trucidados, à fúria cíclica da natureza, elevavam vozes ruidosas. Olhou o sismógrafo. O seu. O que vivia, dia após dia, em cada ruga que via em sua face. A terra e ela, enrugadas a um só tempo. E as falhas tectónicas que sabia, havia, nos terrenos que pisava…

Minutos antes, como se lhe tivesse lido os pensamentos, o telefone tocara. O silêncio, o jejum pascoal, quebrado por breves minutos e o pedido de que mantivesse a luz acesa. Uma lágrima. Recalcitrante lágrima, brotara da raiz do tempo. Olhou-se na pedra e não se viu. Hesitante pegou a caneta, buscou uma folha branca no monte de papéis desordenados que mal cabiam na pasta. Finalmente, escreveu:

“Restauro a liberdade de te amar.
restauro-me em prosas que não entendo, em versos que me são, em tantos minutos, em tantos segundos, intrinsecamente adversos. Olho o que escrevo e compreendo que não mais são do que conversas inoxidáveis em que, no edificar propósitos de te deificar, apenas tento superar o meu medo de solidão e, nesses escassos instantes de liberdade poética, acredites ou não, sinto por ti imensa gratidão.
Existe uma dupla hélice, meu amigo, no barco varino em que viajo as fímbrias desta cidade … Uma alimenta o moinho da minha imaginação, outra, corta-me as vísceras sem qualquer sentido. Peixe fora de água, respiro por guelras. Mas os olhos ficam cada dia mais mortiços … Subjaz o sangue e as lampreias do rio que sobem ao teu em desova. E a seiva que aromatiza a erva que uso na confecção dos caracóis e que a mantém na forma erecta … (Bem vês, no meu espírito reina sempre um turbilhão de ideias, não busques lógicas no que escrevo …).

Restauro a liberdade de te amar,
em cada manifestação cromática de uma nova folha a nascer, em cada olival, em cada oliveira altiva em prumo à vida, nos ramos em flor que se erguem e varrem a noite em resquícios de coragem a raiar loucura. Restauro, meu amigo, mas, para tanto tenho que te apagar a luz. Desculpa … Dizem que é importante a ecologia. A poupança de recursos energéticos. E dizem também que há que buscar energias renováveis.
Dizem ainda que em ambientes de dificuldades acrescidas regra geral florescem talentos. Dizem também que cada um de nós acarreta em si um instinto de conservação das espécies… e, dizem uma vez mais que - e de novo tenho de concordar -, não é a pistola que mata, mas o dedo que aperta o gatilho….
No nosso caso, quem aperta o gatilho? Quem fuzila, quem mata, o que luta por nascer? Quem combate a inércia e defende a conservação das espécies? Onde se oculta a verdade e a mentira contrasta?…
Por tudo isto, apago-te a luz. Talvez, definitivamente assim, encontres o caminho.”

Levantou-se. Seguiu, sem olhar para trás, o carreiro determinado das formigas…. Das de asas. E solitária, igualizou-se a elas e voou.

Sábado, 28 de Março de 2009

Rotas de sal


Lisboa, latitude de 38º 4´N, longitude 9º11’ Oeste de Greenwich

“Correspondência ao mar”. Largo o livro. Vitorino a meu lado. Hoje e ontem. Como naquele dia em que to li em páginas abertas de mim própria. O guardanapo: Branco, inconcluso, amplo. Sobre a língua a navegar, um alfabeto de palavras nunca ditas. E outras, as des_ditas. As rotas, as rotas - maltrapilhas de tão safas -, boquiabertas as palavras. Como as pessoas que, como eu, ainda se espantam de si.

A esplanada está deserta. Já todos foram, a cidade não espera por quem não se apressa… A cidade devora-se na pressa das horas postas. Devora-se nos relógios de cuco.
Nos relógios de sol e na escuridão dos rostos.
Taciturnos. Inoportunos. Não se vislumbram sorrisos. E, contudo, falam que é Primavera. Será que é noutra latitude e não aqui? Olha-me o mar como que em formulação de pergunta: não tens pressa?

Não, não tenho pressa. Em rigor nada tenho por fazer. Reformei-me faz tempo. Aposentei-me, como fica bem dizer… Agora sou dona do meu tempo. Mas não de mim… Estranha a forma como me vejo. Branca, enrugada. Como esta folha de papel a que, por pudor, não toco. Dobrada em forma de triangulo no copo ao lado. O teu lado. O teu copo. O teu corpo. Guardo-te. Guardo-te em mim. Borboleta sob copo de vidro perdi o fulgor das asas. Morri…

Escrevo-te.
não sei porque te escrevo mas escrevo. Tempos houve em que te chamava “naval” e, porque naval te confiei a minha alma de água e sal. Faz tanto tempo …

Sabes
hoje almoçava e, sem que me desse sequer conta, uma lágrima traiçoeira desenhou teu nome em minha cara. Como uma gota de seiva na casca enrugada de meu rosto_árvore. Sulcou-me ácida. Beijou-me a boca. E de novo, na doçura das searas depois das tempestades, voltaste e ali ficaste a sorrir à minha frente. Meu mar, meu mar menino. Senhor do meu destino.

E porque chegaste, larguei o prato, intacto (como me recrimino, há tanta fome no mundo…). Maquinalmente icei a vela do meu barco. Bebi a água inquinada dos esgotos por onde me perdi, escrevi palavras no corpo das vagas, epigrafei as pedras de um jangada e, de mansinho, parti!
"Correspondência ao mar"...
Olho agora a carta, esta. Sinóptica. Abrevio a chegada. Olho o Bugio: Um barco rompe na linha de cabotagem.
Alinho os óculos, miope não vejo nada …

Segunda-feira, 23 de Março de 2009

estrada interdita

não sei de onde
nem quando
ou em que era ou idade, se na do Bronze
ou se em puberdades antíquas
nasceu em mim a fome de ser quem sou de verdade:

um mar
um oceano de facto

que não abarco
que não sustenho
que me esgotam do choro ao riso,

por onde navegam sem custo batéis (in)constantes de papel e de palavras,
sem rimas e sem nexo,
ofuscados d’anímicas por um sol excessivo.

cega, indago fórmulas secretas em busca da raiz perdida, matematizo números, dos inteiros aos fraccionários, dos reais aos imaginários, muno-me da vassoura de bruxa e, sem nenhum esforço corro com os fantasmas todos, um a um, da sala escura à vassourada…

desço e subo a escada, (dizem que conduz ao paraíso)
deslizo pelos supranumerários…
(estes, dos muitos gabinetes, sem reciclagem possível. incrível, como a traça não destrói a permanente bagunçada, que bem precisa!!! ).

numa loucura concisa proponho tempos novos ao tempo.
um tempo em que, maestrina, de batuta descoordenada, assumo meu e dirijo num ritmo alucinado de um cansado metrónomo.

na vanguarda de mim
viro cento e oitenta graus a cabeça
(que a tenho suspensa por um único osso, quase, quase despegada, já meio degolada…) olho os meus bolsos de trás, aqueles onde guardei uma centelha de esperança: tem a cor robusta das moçoilas da aldeia, das papoilas erguidas nas searas da vida, com que incendeio o caos que sempre m’habita, de forma permanente (direi que infinita), este, que em cada poema se solta dos terminais dos dedos e transita em julgado, sem método, sem regra outra, e s’eleva em vagidos de sons, banda em dia de festa, no centro de um coreto, ali, ao lado do lago, onde vislumbro o canto incessante de um cisne, se me busco pecadora confessa na desventura e na desdita de, num registo telúrico, de movimento impreciso, ousar rebuscar a forma harmónica na ogiva inacabada de uma estrada interdita.

Sexta-feira, 13 de Março de 2009

Esqueço

Esqueço
as palavras mudas em que a madrugada me responde, no avesso d’humana espécie. As chibatadas dos arbustos corcovados sobre o dorso, o acervo de imagens revoltas de retortas ...
(nas dobradiças desconchavas, sob o azedume do vento, chiam as portas e, de lá de fora, das manhãs de Inverno, vem agora o cheiro empapado do gelo adormecido sobre o verde das hortas).

Esqueço
o gesto circunflexo em que se desenhou lá mais atrás o Universo na boca com sabor a sangue, na gravidade desmedida das silvas entardecidas.
Bebo memórias d’amoras devoradas p’la calada da vida, num tempo sempre de bruma…
“… uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma”.

Esqueço
e tropeço na febre d’estrelas vestidas nos silêncios diurnos, acopladas aos meus olhos viajantes e nas ogivas do teu mundo.

Então, rebusco sentido na opacidade do vidro, recuo ao momento exacto da divisão celular e sinto o tempo a alongar-se ao infinito.

Projecto-me no grito e no canto lírico em pranto, confesso a confusão e o desconcerto das águas escorridas na nora ruidosa e nos alcatruzes das horas… e o seu inverso.
Subo o dorso frio do sonho metafórico, incendeio a alma já enforcada p'lo pescoço.
Andarilha, suspensa ali, ou mais além, no gume mutilado da flor em erupção, rebusco o abraço da corda desenhada na trave carunchosa da palavra.

Finco-me dormente, ausente do chão que me palmilha, substantivo e incongruente.

Intricada em signos dos teus desígnios, sou formulação de pousio, serenidade d’ecossistemas objectivada, na busca em bonomia da eficiência, da eficácia, na avaliação prosaica do puro instinto, na reformulação da causa, do propósito da caminhada. Eternamente.

Convergente no intrincado dúbio da tua mente… esqueço!
Esqueço-me de mim e, passo a passo, recomeço.
Caminho-me em alvorada!

Publicado na Antologia Luso-Poemas 2008, Edium Editores, pág. 67 e seguinte, da autora.

Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Ser Formador...

Ficha Técnica:
Título: Ser Formador - Um acto de constrição e de crescimento interior
Subtítulo: Do previsto ao possível – um jogo de luz e sombra
Autor: Maria Amélia de Carvalho Luís, Formadora
Palavras Chave: Desvinculação Laboral; Competências Sociais
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Ser Formador - Um acto de constrição e de crescimento interior
Do previsto ao possível – um jogo de luz e sombra

Existem momentos na vida de um Formador em que nada – ou quase nada, do que se desenhou como Referencial de Formação para uma determinada Sessão/Acção, se aplica.
As razões, de natureza vária, que quem está no terreno tão bem conhece, oscilam entre o “previsível e o inusitado”. Oscilam entre a expectativa positiva perante o que se deseja aprender e a resistência pela “obrigatoriedade de presença” dos diferentes públicos: - as razões pelas quais estão à nossa frente, o tempo ou tempos que estão a viver, a sua estabilidade emocional e, obviamente a nossa.
O primeiro momento de encontro entre o Formador e os Formandos, é não raras vezes, determinante do resultado final face ao trabalho desenvolvido. Uma Acção de um ou dois dias, é obviamente diferente de uma outra cuja duração seja de dias ou meses. No caso da primeira, o momento do encontro, é sem margem para dúvidas, um momento de grande expectativa de ambas as partes.
Se tudo isto é certo, o certo é que, no caso em apreço, o pendor do desemprego, o tipo de público, iriam tornar todas estas variáveis ainda mais intensas e desafiantes – para todos nós.
Não pretendendo, neste pequeno ensaio explorar com exaustão todas elas, e muitas outras que seria possível elencar. Situo-me apenas nas que determinaram o desenrolar daquele dia, de forma algo resumida, com a maior fidelidade possível. Como amplamente tenho defendido, o Formador não é próprio isento de vivências, experiências, emoções, etc. O Formador traz consigo uma bagagem profissional, cultural, experiêncial que o torna único. Os mesmos conteúdos podem ser trabalhados (e são) de diferentes prismas. O olhar do Técnico de Formação, não obstante o afastamento que eticamente se lhe impõe, não deixa de estar “enformado” por contextos de vida própria, posicionamentos classistas e /ou políticos.
Mandam as regras da Formação que, para além do afastamento, da assertividade, do respeito pelo formado, não sejam ultrapassadas barreiras: temas ditos “tabus”.
Destes, o futebol, a política, a religião, são sem dúvida aqueles mais relevantes, pelo que de “incontrolável” em termos de gestão do momento formativo pode daí advir.
Dizem as regras que o Formador deve ser sóbrio nas suas indumentária, sob pena de concentrar em si e na sua imagem as atenções e não passar a mensagem...
Dizem as regras .... Este foi eventualmente o dia, de todos os dias em que estive perante um grupo, em que as regras foram mais quebradas... O que daí resultou, deixo aos que me lerem, o tirar de conclusões. Do que resultou para mim, vos darei feed-back no fim deste relato.
A jeito de posicionamento, enquadro a situação:
• Acção Prevista: Desenvolvimento de Competências (DC’s).
• Duração Prevista: 7H;
• Formador Externo: (em colaboração de parceria com o Centro de Emprego, no âmbito de um Projecto com componente UNIVA): Técnica Superior de Sociologia Licenciada em Sociologia do Trabalho ISCSP-UTL (Doutoranda em Educação e Desenvolvimento);
• Público Alvo: Desempregados, Subsidiados, inscritos num Centro de Emprego, da Área da Direcção Regional de Lisboa;
• Idades: Entre 55 e 65 anos;
• Qualificações Médias: Cursos Industriais, Bacharelatos, Licenciaturas, Mestrado; Tempo Médio de Desemprego: 4 Meses;
• Média do último cargo ocupado: Direcção (Recursos Humanos; Produção; Finanças); Chefia Superior; Assessoria; Docência; Técnicos Altamente Qualificados ...
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Corria o Inverno de 2005, Dezembro estava para além do meio, e o Natal estava tão próximo que seria possível quase adivinhar-lhe os cheiros e os sabores: Canela, mel, azevinho, sobro e zinho: queimado na lareira. “Escutar” as intermináveis conversas cruzadas entre adolescentes e adultos, numa casa onde já não há crianças. A minha casa... Alverca, a casa da família, habitada desde sempre...
Dentro do carro, em viagem, a caminho de Lisboa, a mente corria ligeira. Percorria corredores de tempos em que, por aquela altura, a azáfama dos preparativos, das decorações, das compras de última hora - mais um vestido para a filha, uns calções para o filho (haveriam de usar no almoço de Natal) e que, embrulhados, contribuiriam para tornar o “monte” das ilusões maior e o suspense igualmente maior: Chegar ao livro pedido ao Pai Natal, ao Jogo, ou ao CD, à Boneca .... Retardar da emoção, o sorriso.... o abraço.... – “Obrigada, Pai Natal”. Eu era o “Pai Natal” – ou melhor, a “Mãe Natal”!
Por essas alturas, corriam os anos oitenta, o trabalho, não me conseguia preencher de todo: algo rotineiro e monótono – apesar de exercido em contextos de profissionalismo e dinamismo, deixava-me espaço mental para os pequenos nadas do Natal em família, com a família. Para a família. Numa família como a minha – simples e modesta, não importavam os títulos, o que fazíamos, mas SE fazíamos.
E fazíamos todos! Cada um uma coisa diferente: Comércio, Laboratório, Secretariado, Costura, Serralharia, Agricultura, Engenharia, Doméstica... Todos estávamos ocupados... não se falava de trabalho (de falta de trabalho) nesses tempos e muito menos nessas alturas. Na minha zona havia pleno emprego, o desemprego chegaria mais tarde ....
Nesses tempos, fazia listas. Intermináveis listas: compras para a festa, presentes, postais a enviar, telefonemas a fazer... e, no fim de tudo, “no lavar dos cestos” olhava para os despojos com a tristeza e a certeza de que vivia numa bola de sabão gigante, que a qualquer momento teria, forçosamente de rebentar...
Num só tempo, soprava o fino tubo, mergulhado na sabonária (talvez aquela da Caldeiraria de Tubos, do Chefe Lopes, à cota 12... , esvoaçante ao vento, altamente corrosiva, resultante da lavagem química), entrava na bola que eu mesma construíra e soprava de novo! Ano após ano ...
A bola crescia, cada dia mais, numa neblina de cores, num esbatido dramático-patético de tempos em que não se faz o que se quer: Tenta-se fazer o melhor possível o que se pode, ou o que se sabe: era o caso. Um dia, teria de rebentar...Rebentara!
Os tempos haviam mudado... Pessoas importantes haviam partido – do mundo dos vivos, do meu mundo de afectos. Os filhos crescidos, e um espaço enorme, bem lá no fundo de mim mesma, por preencher... um vazio, um “nada”... Lá muito longe, ficara “numa qualquer esquina da vida” um sonho por realizar: Trabalhar no Social – Intervenção Social.
O mundo do trabalho mudara. Mudara tanto e tão depressa!
Anos oitenta adentro, começam a surgir os ventos de mudança! As grandes obras, resultantes do acordo de energia assinado entre o Governo e a EDP, e no qual a Mague (a “minha Empresa”) detivera a exclusividade no fornecimento das Centrais Térmicas, e igualmente, nos aparelhos de elevação (gruas, guindastes...), as grandes obras, dizia, estavam a chegar ao fim.
Ao longo das décadas de 60 e 70 (eu chegara à Empresa em Abril de 1978) a Mague projectara, fabricara e montara, guindastes e toda uma gama de aparelhos de elevação, no País e nos anos que se lhe seguiram no Estrangeiro: Os Guindaste da Venezuela, do Bairayn, etc.
Recordei, por momentos conversas animadas, de um regimento de “colarinhos azuis”, sentados contra a parede do Pavilhão da Mecânica Pesada, à Cota 21, na hora do almoço. Uns pré-fabricados erigidos no topo de umas escadas, ao nível do 2º andar, davam apoio à Produção Fabril. Era lá o meu posto de trabalho.
As conversas: O orgulho na chancela MAGUE - produto do SEU trabalho, invasora dos principais mercados do Mundo Desenvolvido. Na minha hora de almoço, das janelas vidradas a sul – para dentro da oficina - olhava o movimento lá em baixo. Um batalhão de “músicos - obreiros” actuando ao som de uma batuta invisível... numa multiplicidade de cores, gestos e sons. Nesses momentos, deixava a imaginação flutuar, desfocava os rostos, via a tela – o todo. Maior que a soma das partes. Uma tela de centenas de metros de fundo, e três andares de altura. Digna do melhor mestre, do melhor pintor ....
Nesse mesmo ano (1978) a BBC – Suíça, adquire 21% do Capital da Empresa.
A Mague estava na Europa ... Os trabalhadores mais jovens e qualificados vão fazer formação à BBC... Tudo parecia ir bem... Os ventos de mudança começam a soprar no momento em que se dá a fusão entre a ASEA e a BBC: 1988. Nasce a ABB
Mas seria o ano de 1990 a trazer o “furacão” às vidas de muitos que haviam feito da MAGUE o orgulho da Metalomecânica Nacional.
Neste ano é formado o Grupo SENETE (Sistemas de Energia, Transportes e Equipamentos - uma holding): 40% ABB; 40% Mague (Sorefame + Mague) e 20% IPE. O Projecto procura responder, conforme é transmitido aos Representantes dos Trabalhadores: “Aos enormes desafios criados pela Integração Europeia... à crise internacional que afecta o sector”. O mesmo projecto previa ainda a cisão da Sorefame em duas Empresas ... estávamos no âmbito do Programa de Reestruturação do Sector da Metalomecânica Pesada!
O Clima Institucional está tenso. Cada dia mais tenso. Os “colarinhos azuis” e os “colarinhos brancos” já não estão do mesmo lado da barricada. Os primeiros vêem os seus postos de trabalho ameaçados, os segundos, acreditam ainda que “hoje aqui, amanhã ali – haveremos de ter sempre lugar”. Os tempos demonstrariam o contrário ...
Em 1994 a ABB torna-se accionista maioritária do Grupo SENETE. A Empresa de Alverca é deslocalizada, desmembrada ...Por essa altura, a minha vida toma outro rumo: O regresso à Faculdade, (ou à a adolescência?... aos dezassete anos, ao último dia em que só fui estudante?...). a partilha – de ideais, de sonhos. Mais de sessenta rostos adolescente/jovens adultos..., a Sala de Geografia, a aula de História dos Factos Sociais... Um palácio cor-de-rosa! O Palácio Burnay.... Junqueira. O acaso, uma vez mais a conduzir o destino... Uma Sala em “L”.... apresentações avulso.
“Como chegou aqui?”... “Ad-doc?...”
“Não, Senhora Professora: pelo caminho “tradicional”...
Reflecti! De tradicional, nada! Uma lógica ao avesso.... trabalhar quando era tempo de estudar e estudar, quando a Empresa em que trabalhava decide deslocalizar-se!.... Inverter lógicas!
Uma janela das oportunidades: Uma janela de alto risco!
A janela pela qual desejava ver o Mundo: O meu mundo. Aquele que eu procurara em ziguezague, a pontos grandes, nos retalhos com que construí o meu percurso...
E agora, ali estava eu, a caminho do Centro de Emprego, onde me esperavam um grupo de desempregados – acima de 55 anos, a quem iria ministrar um Programa de “Desenvolvimento de Competências Sociais e Relacionais”.
Mentalmente ensaiava o início do discurso, a abordagem. Revia o “Programa”, as Técnicas, as Dinâmicas... sentia-me calma, o espírito Natalício ajudava... não obstante ainda não ter feito qualquer compra, nem listas, nem sequer a Árvore.... habitualmente feita a 8 de Dezembro e retirada depois dos Reis... mas não, aquele tinha sido um ano particularmente complicado e simultaneamente particularmente rico: a diversidade de trabalhos em que me vira inserida não me deixava margens para as tarefas Natalícias... mas isso não haveria de ser problema! Neste momento, não era!
O fim de semana estava aí, as notas dos meus alunos lançadas, na Faculdade não tinha em mãos nenhum caso muito complicado, ou talvez um, mas para esse só o tempo poderia porventura solucionar (ou talvez não). Estava muito além do que eu julgava saber, muito além do que tinha estudado (na Universidade ou na Universidade da Vida)... As raízes estavam demasiado fundas! Fiz o encaminhamento necessário, e descansei um pouco.
A saúde estava a desequilibrar-se, era certo, já dera sinais disso por todos os meios – cansaço, e mais cansaço – mas também não seria ela a fazer-me parar. Não agora! Não num momento em que me havia encontrado: comigo, com os meus ideais, com os mais secretos sentimentos... dúvidas, receios... de não ser capaz, de não conseguir... Não agora, que vivia o pleno ....
Um após um, todos os desafios haviam sido superados: A Licenciatura; A Formação (adorava ser formadora): Sistema Aprendizagem/Curso de Secretariado; Adultos desempregados/Cursos de Qualificação Profissional; Recém-Licenciados/Fordesq; Programa Reage; Técnico Profissional/Animadores Sócio-culturais... etc...
Em certos dias, de manhã, no escritório de minha casa, tinha que reflectir que dia da semana era e qual a pasta que tinha de levar comigo... a que trabalhara à noite e pela noite dentro... nos fins de semana, nos feriados, nas férias...
Em cinco anos, a minha vida tinha mudado tanto....
Por cada vida que se cruzava comigo, sentia a minha mais rica.... e ficava imensamente grata!
O desemprego: Uma janela de Oportunidade. Eu tivera a minha. Logo, tudo era possível! Bastava desejar e lutar por um sonho. Em qualquer idade. O meu concretizara para além dos 35 anos, perto dos quarenta...
Embrenhada neste pensamentos, a Segunda Circular passou! Mais de uma hora, para um percurso de 25 minutos... Alverca/Lisboa.
Nove e um quarto da manhã. Chego ao Centro de Emprego, troco cumprimentos amigos com os “Colegas”. Preparo a Sala, verifico o Retroprojector, os Manuais, as fotocópias.... Tudo em ordem! Pego nas listas, olho e faço uma pequena síntese de perfis.... Licenciado, Licenciado, Licenciado... Bacharel... Curso Industrial... Licenciado.... etc.... 17 pessoas....
Não virão todos, faltam sempre. É Natal, menos virão... pensei. Um grupo de “Desempregados Qualificados”.... Muito homogéneo, por tal sinal. Uma excepção, apenas ...
Caminho, a passos fortes, para a Sala de Espera. Não gosto de os fazer esperar. Não gosto de me fazer esperar... Sei que estão ali “obrigados”, e que basta um pequeno atraso para perturbar o processo de comunicação.... Dirijo-me à máquina de água, retiro um copo, bebo... de olhos nos papéis, vou andando.... Levanto os olhos....
Na minha frente, uma sala de espera cheia.... Um ambiente pesado, como se o peso do desemprego aliado à gravidade, impedi-se o ar de flutuar livremente e de se renovar. Semblantes cerrados! Um silêncio mórbido. Só a Recepcionista me esgueira um sorriso e me confirma: “Estão todos, Drª....”.
Devolvo-lhe o sorriso. Olho de frente os meus companheiros de jornada. Olho de novo o monte de convocatórias e começo a chamar um a um, com o meu melhor sorriso, por aqueles, de quem, até aquele momento, apenas vira os nº s e nomes em lista ... Senhor “A”; Senhor “B”; Senhora Dona “C”...
Um a um, começam na responder.... e as minhas pernas, antes firmes, começam a bambear... mantenho o sorriso, mas a voz, começa a perder a firmeza.
Sentados ficam outros, de outro grupo, de outras idades... Os “meus”, pela primeira vez, desde que começara a desenvolver aquele programa, assustam-me profundamente...
A comunicação não é apenas verbal.... os sinais são evidentes! Um grupo, muito, muito especial.
Sinto um frio na espinha, que me chega à base da nuca.... um medo maior do que quando era criança e ficava sozinha....
Sinto vontade de fugir, largar tudo, inventar uma dor súbita, uma crise de Estado, sei lá.... um telefonema urgente... qualquer coisa! Fugir! Fugir ... O que lhes vou dizer hoje???
Só tenho que fugir. Dali, daquelas pessoas que ali não deviam estar e estão, de mim, “tão pequenina” .... Que lhes dizer? Olho uma vez mais... A Recepcionista, como que adivinhara a minha angústia... “Estão todos Dr.ª...”reafirma. “Sim, sim obrigado! Vamos entrar já!” – respondi.
Viro-me ligeiramente para a parede, respiro fundo. Num segundo o filme de toda uma vida de trabalho, mais de 25 anos (a minha própria vida), passa!
Passa o Outsorcing, o Downsizing, a Reengenharia, a Fusão, a Reestruturação, a Deslocalização, a Globalização, a Flexibilidade, a guerra da produtividade, as prateleiras doiradas, as reformas antecipadas, os serviços extinguidos, as “rescisões amigáveis”... a “guerra” das cadeiras.... o jogo dos interesses...
Do trabalho para vida, para uma vida de trabalhos: avulsos, a prazo, a retalho.... o emprego em alternância (não foi disto que me falaram, em Políticas de Formação e Desenvolvimento): “Amélia, está a baralhar tudo.” ... “Formação em Alternância, escola/posto de trabalho...”. “Professor, Professor, eu vi e conheço bem outro modelo: emprego/desemprego/emprego; desemprego/sub-emprego. Precariedade .... Sempre em alternância.” E estou agora a ver de novo...
Uma Metalomecânica de renome internacional, engenharia, projectos... Cinco letras, as duas primeiras MA (tal como eu) – e G(rande) e U(unidade) e E(sperança)... O que resta: Passei por lá há pouco mais de uma hora ... um espaço, apenas um espaço: Nele jorram prédios em condomínio.... éramos mais de mil. Eu, a mais nova de todos... Fiz testes tinha dezasseis anos, o meu pai teve de assinar o me Contrato: era menor!
A minha estória, a estória destes desempregados.... cruzada, uma vez mais! Mas agora, não sou mais quem era (ou melhor, não só quem era), agora tenho uma missão: devolver-lhes um pouco de esperança.... mas como? Como, como, Deus meu? “Um Licenciado têm uma licença para estudar sozinho” - dizia o Senhor Professor Adriano Moreira, sabiamente. Estudar! Estudar um plano – agora, já...
Peço-lhes que me sigam, por favor....
Voar em vê! Eu no bico do “V”.... recordo a minha estória favorita: “O Voo das andorinhas”. A importância de voar em “V”.... Agora já não são dezassete, somos dezoito. “É por aqui, por favor!”.
Era por “ali”! Vamos voar em “V”! Não sabem ainda, mas juntos, iremos fazer daquele dia de quase Natal, uma manhã de Agosto, e vamos atravessar juntos o Oceano das suas vidas... e da minha. Juntos! Tal como as andorinhas, espero que neste dia, de igual modo, se cumpra a sua regra do voo: quem segue em segundo lugar, tomará brevemente o primeiro lugar (agora o meu lugar), e o terceiro, substituirá o segundo, e assim sucessivamente... Só desta maneira, deste modo – reflicto interiormente - não terei de fugir... Medito profundamente e decido: “Sim, vamos voar em “V”! Hoje vamos voar em “V”.
Encosto-me à parede, dou-lhes passagem... na porta entreaberta, da Sala antes preparada! Entram, não se sentam....Entro também, leio uma vez mais os sinais... o desconforto, o desassossego...
Convido-os a sentar, a tirar os abafos, a ficarem confortáveis, regulo o ar condicionado, empurro a minha secretária contra a parede lateral, coloco a minha cadeira junto ao DIDAX, virada para o grupo – pertenço ao grupo.
Aguardo um instante, o silêncio reina e pesa... só o restolhar abusivo das minhas saias, colares e pulseiras, quebram aquele silêncio... Dou-me conta que, à falta de arvoe de Natal, “EU” sou a Àrvore de Natal.... saia longa, a varrer o chão, verde.... as minhas escravas ... tudo a tilintar! Como é que não me dei conta disto antes? Deus meu.... como aconteceu esta “figura?”, interrogo-me intimamente.
A imagem, a minha própria imagem, projecta-se na minha mente, faz-me sorrir: “Amélia, pareces mesmo a Árvore de Natal!”...
Encontrado o mote, começo:
“Bom dia, meus Senhores, sejam bem vindos, a este espaço de diálogo e partilha – “Desenvolvimento de Competências”. Maria Amélia Luís...
Começo por Vos pedir desculpas: - contra todas as regras, hoje, talvez por “espírito de missão - fazer a Árvore de Natal que ainda não fiz, e que já devia ter feito” - A Árvore habita em mim... o meu subconsciente montou este cenário .... mas nada está perdido, acho!”....continuo a sorrir ...
“Se me permitem, vamos esquecer os Manuais, os Retroprojectores! Vamos montar juntos, a Nossa Árvore de Natal – de sonhos, de partilha. Eu, neste “preparo” serei a Árvore; os Senhores as luzes, os brilhos .... em boa verdade, creio que não tenho nada (ou quase nada) para vos dizer, de novo, nada que não saibam ou que não tenham já desenvolvido! Olhando-os a todos, sinto-me pouco mais do que uma folha de papel, num dia de vendaval... prossigo:
“ Perdoem-se, mas nada do discurso que ensaiei se aplica, nada do que tenho nos Manuais me faz sentido .... Por isso, por favor, sintam-se à vontade para ir embora... ou, claro, como eu gostaria, partilhar com todos nós o que desejarem, das vossas experiências e vivências – pessoais, profissionais... ou ainda, caso seja esse o vosso desejo, ficar e ouvir apenas, os que, com as suas experiências, me quiserem ajudar a superar o desafio deste dia...” – Ao dizer isto tudo, de rompante, os meus olhos percorriam a Sala de lés a lés, procurando apoio!
Quem dá formação sabe o quanto é importante conhecer o ponto de ancoragem desde o primeiro instante... Mas os semblantes permaneciam fechados...
Continuei: O que faço – para além disto.... e, inevitavelmente, o que já fiz – não onde o fiz! O nome(da Empresa), só diria muito mais tarde ... o meu percurso...
Não me dava conta (dei-me depois), mas falava sem parar, andando pausadamente de um lado para o outro, falando, com os gestos, com o corpo, olhando uns e outros, sempre em busca de âncora ... e, finalmente, à minha direita, um dos formandos, interrompe e reforça a ideia... do que estava a dizer, naquele momento....
Conhecia as Reengenharias, as Fusões, etc. ...tinha inclusivé sido um dos seus mentores e uma das suas vítimas... por isso estava ali... Director de uma grande Empresa ... “como a Dr.ª diz, sempre que se juntam... sobra alguém... sobrei eu...”.
Já não estava a comandar o voo.... Cansada, de quase meia hora a falar... parei. (De que falara eu???.... de mim??? De nós??? Do que estudei??? Do que vivi???...na pele ou por osmose – da pele dos que ao meu lado trabalharam tantos anos - agora à tarefa, ao “projecto”, sem projecto... na esquina da vida... a contrato (e eu, não estava também a contrato???).
Dez anos depois e eu a contrato... pensava, intimamente. Não dizia... não podia! Como podia??? O Ministério do Trabalho também dava/apoiava esta tipologia de relação? – Animadora, eu era Animadora... mas isso agora não importava nada... ou quase nada.
Bebia das palavras do meu companheiro de voo... 56 anos, quase tantos de trabalho, a terra nas Beiras.... o Curso Industrial – “à noite Dr.ª.... Sabe o que é um homem estudar à noite?.... Depois de um dia de labuta? A Sorefame, já ouviu falar?... Actual Bombardier! Claro que conhece, de nome, pelo menos. Vim de lá... Mas Dr.ª não sabe o que isso é! Estudar à noite!.. (Sabia). Continuava: “Subi sempre a pulso, sacrifiquei tudo, a família, os amigos, os vizinhos nem os conheço! Agora moro num Condomínio, trouxe indemnização... mas deixei o carro, o cartão ... e a minha vida inteira. Aceitei vir aqui, queria ver como é que vocês pensam “ensinar-nos” Competências Sociais e Relacionais...” – o desafio no olhar, a angústia na garganta, a voz em ressonância....
Conhecia aquela mágoa! A mente em voo, de novo. Desta vez para o 1º andar do Edifício Principal, da “minha Empresa”.... os carpinteiros a retirarem as divisórias... o Gabinete de alguém ... a secretária vazia, sem papéis, um lugar no corredor – literalmente!... Quase dois metros de homem, ali.... e uma vida reduzida a nada... 30 anos de trabalho.... O estômago embrulhado (o meu), na manhã quando cheguei e me dei conta... era necessária aquela humilhação??? Ninguém falava! Quem seria o próximo?
Voltei à Sala... à Formação: Tentei manter a calma, a postura, a atitude... mas uma lágrima traiçoeira aflorou-se-me dos olhos. Não poderia deixar que tombasse, mas a verdade, é que aquele Senhor me fizera recuar anos, e ainda doía, doía tanto. Continuei, com toda a calma possível:
“Como certamente saberão, O Plano Nacional de Emprego, prevê uma Intervenção Técnica com todos os desempregados num período “x”, o que seguramente é o vosso caso.
Creio que todos já estiveram presentes, com uma das minhas colegas, a uma Sessão de Informações Técnicas e vos foi delineado o vosso Plano Pessoal. Nele estava contemplada a possibilidade desta nossa Acção, e os Senhores terão demonstrado aceitar a mesma. Logo, não seria profissional da nossa parte não dar cumprimento ao previsto... prossegui! Por isso, estamos aqui.
Não será propriamente uma questão de vos pretendermos ensinar alguma coisa, pela minha parte, garanto-vos, não pretendo “ensinar” nada, de todo ... todos têm uma vida mais longa que a minha ... por conseguinte uma história e saberes certamente muito mais interessantes...
Confesso-vos, quando cheguei de manhã e vos vi, tive medo de não poder corresponder às Vossas expectativas (revelava-me). Senti, contudo, que poderia aprender convosco, (valorizava-os)! Sim...e, porventura, numa sessão futura, partilhá-lo com outros, noutros contextos. A forma como cada um de nós supera uma dificuldade, desde que não fique apenas dentro de nós – seja partilhada - pode contribuir para minimizar angústia de quem se julga sozinho... e contribuir de igual modo para a resolução de eventuais crises. Nesta Sala estamos dezoito pessoas em iguais circunstâncias! Digo estamos, não por plural de cortesia, mas porque me identifico convosco (também eu, já vivenciei a experiência pela qual estão a passar)... pela minha parte, repito, creio que esta será uma oportunidade de aprendizagem... de partilha...”. - Olhei o meu companheiro de trabalhos da direita, o Senhor que falara e perguntei: Concorda? .... Concordam?... perguntei à Sala.
Algumas cabeças abanavam, positivamente. Continuei: “Numa época como a nossa, o desemprego pode surgir nas nossas vidas quando menos imaginamos que isso possa acontecer. Pode surgir quando o adivinhamos ou pressentimos – as estruturas deram sinais... Pode até ser uma “escolha” – rescisão amigável, por exemplo: nós “escolhemos” aceitar... face a uma alternativa pior ainda... adiar a “morte”... ou “morte anunciada”, como é usual dizer-se, do nosso posto de trabalho...
Vivemos, como referi, um tempo em que nada é seguro: O emprego, as relações, os momentos de viragem... O desemprego, dizia, surge assim, fruto de uma conjuntura! Sei, que em muitos casos, achamos que “aquele” desemprego também é nossa culpa ou, pior, é Só nossa culpa – porque não nos adaptámos, não nos reciclámos, não o priorizámos, em desprimor das nossas famílias, das outras relações, dos nossos interesses... E assim sendo, ainda nos sentimos piores, verdade? Não precisam de me responder, respondam a vós mesmos: alguém se sente assim? ... Falaremos disto mais tarde, caso queiram! prossegui:
- Sei, como vos disse, porque já vivi e, porque muitos, como os Senhores, não tão qualificados é certo, (confesso que nunca tive, até hoje, um grupo como os senhores), mas igualmente desempregados e das vossas idades, me deixaram, com todo o respeito que a condição exige, entrar dentro do seu espaço, a mim e aos colegas em Sala, e me doaram um legado, no fim de cada um dos dias de trabalho que com eles passei: SEMPRE, lições de vida, todas diferentes. Lições de sabedoria, resistência, persistência. A vida não acaba com o desemprego – apenas muda o eixo e a centralidade deste nas nossas vidas... e é disso que podemos falar.
Os colegas desempregados de outras sessões, deixaram-me pistas múltiplas: Sobre o modo ou os modos como encontraram, sózinhos ou em grupo, saídas para as suas próprias vidas. Algumas destas saídas nasceram, precisamente aqui, nesta mesma Sala. À minha frente!
Poder-vos-ia contar várias histórias, todas verídicas, como aquela do senhor “A” e o senhor “B”, residentes no mesmo prédio há mais de quinze a nos, que não se conheciam. O 1º motorista de longo curso, o segundo trabalhador de turnos. O 1º, fechara-se em casa, desde o dia em que se vira desempregado. Não se vestia sequer... Para quê? Os problemas com a esposa, começaram a surgir... Não conhecia ninguém, logo não via motivos para sair... o 2º, uma pessoa extrovertida, membro do Clube Local. No fim do dia, já combinavam passeios com a Equipa dos “miúdos” : “O vizinho conhece a Europa, caramba, a malta precisa é de um Motorista com experiência, já não se escapa... Amanhã, quando for “á bica” toco-lhe a campainha, em casa não fica nem mais um dia...”. Olhei a Sala de lés a lés e continuei. As forças vinham de onde eu não as sabia ter. Eu própria estava espantada comigo... O que é que estava a acontecer ...
Sempre de olhos a varrer a Sala continuava e desafiava ao mesmo tempo: Mas estamos aqui para partilhar as “nossas histórias”, certo?” – prosseguia: - “O Desemprego é difícil não só para nós, mas não menos para todos os que privam connosco, numa esfera mais íntima ou mais alargada! São, por isso, estes os momentos em que, o modo como comunicamos – mais do que aquilo que comunicamos, se torna tão importante... a mudança, implica a mobilização de um conjunto de competências que, porventura, julgamos já não possuir... o desemprego (voluntário ou involuntário), deixa vazios... em muitos casos, tão grandes, que se torna imensamente difícil preenchê-los.... todavia, como referi, outros, que por lá passaram, conseguiram: A princípio não havia caminho ... o caminho faz-se caminhando, citava.
Quando olhei para os Senhores, repito, senti que juntos poderíamos, reunir um conjunto de experiências, do que têm sido as vossas vidas, desde o dia em que deixaram as vossas Empresas. O day after.... No Japão, por exemplo, as coisas passar-se-iam certamente de outra forma, existem programas a decorrer em simultâneo com a vida activa, que vão no sentido de dotar os activos de “modos de vida alternativos e socialmente úteis”. Estamos em Portugal, a nossa realidade é diferente.
Percorri a Sala com o olhar de novo... o gelo, aos poucos, começava a derreter-se! Os corpos estavam menos tensos, os rostos menos fechados... Na minha frente, uma Senhora esgueirava um leve sorriso... mexia-se na cadeira. Com um olhar, convidei , incentivei à participação.
Apresentou-se: “Rita”, vamos chamar-lhe assim, um curso de secretariado do ISLA, Secretária da RDP.... tantas experiências, desde quase os primeiros dias da Rádio... tantos conhecimentos, falava línguas fluentemente, mas não se adaptava às novas tecnologias – “talvez por isso... meteram primeiro umas miúdas, depois, todos tinham computadores...” foi convidada a “negociar a saída”.
No início até achou a ideia simpática. Um tempo para viajar, para reatar amizades antigas... por as leituras em dia... Vivia sózinha! Sim, tinha filhos, casados, ela própria também já fora ...duas vezes... as carreiras... o desgaste... não dera. Vivia sózinha! No início, os dias passaram, como se de férias se tratasse .... mas ao fim de um mês, já não sabia o que fazer do tempo... como gerir 24 sobre 24 horas, dia após dia, longe dos filhos – haviam escolhido a margem sul para morar... a Dr.ª sabe, aqui ninguém pode comprar casa.... os amigos, estão no activo, e o tempo, parece não passar... custa! Custa mesmo, sabe?...
“Acho que sei – ou melhor, sabemos todos. Por isso, podemos pelo menos hoje, partilhar a forma como estamos a superar esta fase... – continuei ... Lá fora, para além destas paredes, se nos encontrarmos em qualquer esquina da vida, seremos livres de nos re(conhecermos ou não). Gostaria que sim... sorri de novo... (à mente veio-me o mail da Manuela: “O que me ensinou a ver ... quando me encontrei consigo naquela esquina da vida” – um mail recebido meses depois de uma Sessão com desempregados de Cascais). Obrigado, Manuela.
“Eu estou a fazer um Curso... pintura....”. Dirigi o olhar para quem falara. Um senhor, elegante, afável... distinto, diria mesmo... Sorri, incentivei, uma vez mais: “Onde?... já pintava antes? Começou agora?... (Re)descobriu o gosto? ...”
“Não, não, sempre gostei de pintura, fiz Belas Artes – ou melhor, António Arroios, mas não dava... avancei para a Engenharia Civil, pontes, estruturas.... mas nunca acabei... o Curso. Era Desenhador Projectista, colega do Eng.º.... olhou para o senhor que falara antes... o resto já sabe... a Empresa falhou, falhou-me, falhou para todos (ou quase todos) ... os Gabinetes de Projectos estão cheios... voltei ao meu hobby, aos meus pincéis, falta-me o espaço, pinto na marquise, em cima da máquina de lavar – quando não estou a estorvar.... um homem em casa, ao fim de 30 anos, está sempre a estorvar... não tenho espaço, reafirmava. A casa encheu-se de tralhas.... acho que nem as via... agora desejava deitar aquilo tudo fora, mas não posso... ou não devo... as duas coisas!
Durante anos, não me dei conta que aquela já não era a minha casa... vivia no escritório, quase em permanência... dia e noite, fazia horas extraordinárias, a malta ganhava bem... também nem me dei conta que os filhos cresceram, estão na Faculdade... com eles também é difícil falar, os tempos mudaram ... muito (fazia com os dedos o gesto tão conhecido de “dinheiro” – ou falta dele), entende? ... não compreendem que agora não dá para tudo, as horas extraordinárias davam uma grande ajuda... as coisas mudaram ... para mim e para todos lá de casa... ninguém se preparou para isto... não temos grandes reservas.... ou melhor, sendo mais honesto: não temos reservas!!!
De novo o silêncio! O que o Senhor “Anacleto” acabava de dizer não era mais nem menos do que, cada um, de diferentes maneiras, estava a sentir! O espaço. A gestão do espaço. Os quadros superiores destas idades, não habitam as suas casas, não vivem as vidas domésticas, regra geral. Do Jornal ao Computador, tudo está no escritório. E quando voltam? O sofá, durante o dia, não lhes está destinado, o aspirador não pára! O Jornal, esse, fica na casa de banho. Depois, estão em casa em permanência, a esposa, a empregada. E, à tarde, as amigas da esposa, e o jogo da canasta... Onde está o meu espaço??
E quanto às reservas? Dinheiro... Agora já não existem envelopes azuis ou brancos, nem carro, nem cartões, nem telefone ... nem sequer décimo terceiro mês ou décimo quarto. Doze meses. Máximo de três ordenados mínimos ... nalguns casos, menos de metade do orçamento normal da casa...
O colega do lado pegou-lhe nas palavras: “Quem tem reservas? Sou do Norte, irei passar, como em todos os Natais anteriores, lá o Natal com os primos sobrevivos, tios, etc... É habito levar lembranças a todos. Este ano, as coisas estão neste estado. Mas vou levar. Tenho de levar. Provenho de uma família em que o trabalho é “Sacro-Santo”. Como posso dizer que estou desempregado? Fui Director Financeiro – à moda antiga!!! Sorriu. Onde vou agora arranjar novo emprego? Tenho 61 anos. Sinto-me jovem, por dentro e por fora, mas o BI não mente!
Olhei-o com toda a comoção, mastiguei a emoção, engoli a minha própria dor. Não me restavam palavras... havia pedido licença e estava agora sentada, sem mesa à minha frente, com as costas contra a parede, bem de frente com o grupo. Olhei-o, e os seus imensos olhos azuis, deixaram-me num vazio de palavras... estavam plenos de brilho, um brilho de sal e mágoa!
Nestes momentos, não existe nada que possa ser dito. Ou sou eu que não sei dizer nada??? O silêncio pesava mais do em qualquer momento anterior... Salvou-me um outro, desta vez um Colega Psicólogo.
“Meu amigo, toca-nos a todos... Trabalhei em RH mais de 25 anos... estou aqui”. Com alguma graça, atacou ... tantos mandei embora que tive que fechar a porta e vir também...”
Julguei oportuno fazer alguma síntese: - “Focaram-se aqui aspectos fundamentais: O papel do trabalho nas sociedades modernas, a Gestão por Objectivos e o cumprimento de directivas meramente economicistas, conducentes a situações como as vossas...”
Lancei o repto: Como via o grupo as duas temáticas – O papel “Sacro-Santo do Trabalho” e “O modelo economicista, não humanista?”.
O resto da manhã, foi decorrendo, sem intervalo sequer, em torno de um debate acesso, à luz de diversas perspectivas, sempre no enfoque das suas próprias experiências ... Quando nos demos conta, já passavam das 13, 30H. Decidimos parar e almoçar ... convidaram-me, almoçámos juntos e juntos retomámos os trabalhos da tarde.
Sem um plano, sem um guião, guiados apenas pelas nossas convicções, fomos debatendo temas, partilhando experiências, questionando modelos, tomando notas – de memória as minhas – escritas as deles.
O nosso “Jornalista” – havia um no grupo - focalizava-se na urgência de programas informativos, sobre modelos de Cidadania Activa, Envelhecimento Activo, de participação e responsabilização social; a nossa “Técnica de Marketing” falava-nos de como havia começado a carreira numa época em que nem o conceito era conhecido quanto mais a palavra em si, e de como hoje tudo “era Marketing”... péssimo, muitas vezes, abusivo, outras tantas... mas afinal, e porque é que não se fazia marketing de que o IEFP tinha programas como estes e que os disponibilizava, pelo menos por um dia: Acabara de descobrir que era então uma Sessão de “Brainstorming”.! E finalizava:
- “Há meses que não tinha oportunidade de ter um dia tão intenso... Bem haja quem concebeu tal plano...”
Sorri! Intimamente pensei que fora Ela, o Jornalista, o Projectista, o Comercial, o Financeiro, todos eles... eles tinham concebido e desenvolvido aquele Referencial de Formação. Eu mediara!
De experiência em experiência, fomos abarcando temas como a “Gestão do Conflito”; a “Gestão do Espaço”; “As diferentes formas de comunicar – os efeitos e os defeitos comunicacionais”... A importância do Grupo, o peso do desemprego da esfera da vida: uma esfera de equilíbrios. Eu, com a minha origem na Metalomecânica, falava de rodas dentadas, de como era difícil suportar o ruído destas quando lhes faltava um dente e a roda saltava: Ou seja - “Ruído na Comunicação”...
O voltar às origens, a necessidade de “adaptar o discurso” – ajustar, valorizar: da bagagem de partida à bagagem de chegada - disso nos falou o nosso “ Eng.º Informático”.
Estava a pensar em oferecer as “suas competências” à Junta de Freguesia da sua terra Natal (Trás-os-Montes). Quando se reformasse! Por agora, estava a dois anos, ainda não podia ... mas com a nossa conversa, sentia-se motivado a fazê-lo já, nestas férias. Afinal sempre podia ir fazendo (adiantando) alguns programas, depois lá, era só aplicar e ajustar no terreno ... Concordei, os colegas concordaram! Podia dar Formação voluntária de informática: Não vinha aí o E-Governement ? O Voto Electrónico, etc...?
O Voluntariado, entrara assim na agenda dos nossos trabalhos.
Chegou, de igual modo, a Formação do Longo Da Vida: - Universidade da Terceira Idade, pela mão da “Antonieta”. Conhecera o processo por amigos, gostava de História de Arte (Arte-Sacra... brincou com o colega do “Trabalho Sacro-Santo”), visitar Museus, Igrejas... e perceber o que vis. Encontrara nesta actividade uma luz para o seu caminho de desempregada, e estava a “adorar”.
Deste modo, em sem nos darmos conta o dia foi decorrendo. O Programa de “Desenvolvimento de Competências” tinha sido desenvolvido. De uma forma diferente é certa, mas todos os itens, mas todos mesmo, abordados.
Com chave d’ouro, terminou o Senhor António, igualmente da Sorefame, mas operário (estava no grupo por ter faltado por doença à convocatória anterior).
“Confesso – começou - que quando vi o Eng.º e o Dr. (referia-se aos antigos Colegas), deu-me vontade de ir embora. Mas, já tinha faltado na Semana passada... cortavam-me logo o Subsídio.... faz falta à brava, Dr.ª., a miúda está na Universidade e a mulher também está desempregada. Decidi ficar!...
Depois, como a Dr.ª disse também que podíamos não dizer nada, melhor! Ai é que fiquei mesmo. Mas não falei, ouvi ... Agora quero falar, se concordarem, não sou letrado como os senhores, fiz apenas a quarta-classe (das antigas, com Caminhos de Ferro, Dinastias, Províncias Ultramarinas. Ainda as sei todas na ponta da língua. Mas, meus senhores, acabei de descobrir que afinal, no desemprego, somos todos iguais – dói a todos! As vossas carteiras estão mais cheias, mas estão no mesmo barco que eu ... e já me sinto menos sózinho! Desculpem, o desabafo. Ao longo do dia, pensei muito!..
“Acho que posso também ainda fazer qualquer coisa, ainda ... talvez como disse a Dr.ª: Ir às escolas, falar para a miudagem, das profissões que qualquer dia já não existem e que eu também conheci – muitos anos, Dr.ª., muitos anos... Caldeireiro, Serralheiro-civil, Torneiro, Frezador, Mandrilador, Rectificador, Traçador .... e levar comigo os meus camaradas, lá da Sorefame ... Acho que haveriam de gostar! A malta gosta de explicar à rapaziada como as coisas se fazem ... fazíamos isso com os aprendizes, acabaram também... isso e patifarias, pois claro, mas sem maldade, era a Escola da Vida, a Universidade da gente, a malta aprendia a defender-se, a proteger-se de “patifarias maiores” – para isso é que serviam as nossas patifarias – Vocês, os Doutores, lá na sua Universidade, não vêem os miúdos com as “Praxes”? Servem para o mesmo.” - O processo de socialização, aculturação... (era disso que falava! Não sabia, contudo).Os colegas aplaudiram-no vivamente!
Por mim, nem me lembrava de ter falado do assunto: - Transmissão de conhecimentos nas escolas? Teria sido no início do dia??? Talvez! Ou o Senhor António ter-me-ia lido a mente?... Não era de todo importante!
Importava o facto, sem dúvida, do Senhor António ter encontrado ali e agora “a sua janela de oportunidades” ... e quão grandiosa era: (convivência e troca de experiências inter-geracionais), os saberes antigos, a cultura organizacional. O que é Ser “camarada” de bancada, de posto de trabalho – na essência mais pura do termo “o que está acessível; o que acolhe; o que partilha...” – Aplaudi, acarinhei a ideia, em uníssono com o grupo.
As 17 Horas há muito haviam passado ... Encerrei a sessão, usando pela primeira vez um acetato: “As seis palavras mais importantes”. in “O telhadinho”
(Uso-o sempre! ... Um recurso de que não prescindo.)
...
“As quatro palavras mais importantes: - Qual a sua(vossa) opinião”
Faz sentido esta formação? – Faz-vos sentido?- perguntava.
“As três palavras mais importantes: - Faça(m) o Favor!
De tentarem manter-se activos e viveram o vossa nova vida em pleno!
“As duas palavras mais importantes: - Muito Obrigada!
Mesmo! Pela partilha, pelo vosso tempo e, sobretudo pela vossa confiança. Afinal hoje de manhã éramos 18 desconhecidos: Agora, ouso afirmar: Somos um grupo!
A palavra mais importante: - Nós!
Grupo, Nós estamos de parabéns
A palavra menos importante: - Eu!...

“Eu mesma!... Sem os Senhores, sem a vossa ajuda preciosa, teria fugido, desertado....
Muito, mas muito, Obrigada! A Todos. Mesmo ...
Deixo-vos o meu mail: ...
Se algum dia me quiseram presentear com o que derivou deste dia, não hesitem. Quem “mexe” com a vida das pessoas deveria poder saber se vai por bom caminho. Afinal podemos estar a fazer pior do que se não fizéssemos nada, não é verdade?...” - terminei.
Um a um, entre apertos de mão e beijos, fomo-nos mutuamente despedindo.
Acompanhei-os à porta, como sempre faço... regressei à Sala.
O Pedro, perguntou-me a sorrir: -“E hoje, “miúda”, o que é que lhes deste: Mel ...?”
O Pedro é um brincalhão!..
Respondi a sorrir também: - “Dei-lhes uma Árvore de Natal... um dia conto-te...
Acho que me achou meio-louca ... mas também já estava habituado!...
Pedro, aqui está a história deste dia: Não dei, Pedro – Demo-nos!
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NOTA FINAL:
Não se pretendeu aqui traçar de uma forma rigorosa o percurso da MAGUE, nem dos seus trabalhadores. Apenas e tão só enquadrar num plano conceptual o desenrolar da Acção de Formação em causa, e a estrita relação com as vivências da própria Formadora (ex-trabalhadora da mesma, num período de 18 anos).
Todos os nomes próprios são fictícios, excepto o da redactora.
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Nota "pós-nota": Volvidos alguns anos sobre ter escrito este texto, e que nunca foi publicado em lado algum, encontrei-o numa das minhas Pen's. Meio Perdido... Porque estou de novo no terreno como formadora e, perdoem-me os meus leitores, porque ando sem grande tempo ou capacidade inventiva, decidi colocá-lo aqui. "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", é certo, mas facto é de que, afinal e aplicado a mim própria, o que importa é a capacidade de nos adaptarmos a diferentes realidades. "Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma ...", não é verdade??

Sábado, 7 de Março de 2009

O papel das "marcas" enquanto potenciadoras de melhorias comportamentais e inibidoras de abandono escolar precoce

[O presente trabalho faz parte de um conjunto de contos não editados a que a autora chama “Contos da FCSH - As técnicas de reflexão na tomada de decisão face ao Mercado de Trabalho” .

Este como todos os outros contos, reflectem casos verídicos, com nomes fictícios, e procuram ilustrar de alguma forma, o trabalho desenvolvido com os alunos de Licenciatura e Mestrado, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, aquando da procura do Gabinete de Apoio a Inserção Profissional.] - Publicado em http://www.psicologia.com/ , 2006
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O papel das “marcas” enquanto potenciadoras de melhorias comportamentais e inibidoras de abandono escolar precoce

O Papel do “Técnico de Orientação para o Emprego” não raras vezes, é em si mesmo um momento de descoberta. Do próprio e dos outros.

Do Balanço de Orientação que se impõe no momento de um primeiro encontro, em que se avaliam não só as competências individuais, sociais, organizacionais, linguísticas, etc... mas também, os percursos individuais em função de um “tempo” - daquele que procura, consciente ou inconscientemente, um serviço de apoio e de promoção de emprego – e do somatório do que são ou parecem vir a ser as suas expectativas face ao futuro profissional, resulta em regra, uma Fórmula Mágica decifrável, não no momento desse encontro, mas, e em regra, depois de maturada reflexão, sobre o que foi dito, o que foi percepcionado, ou ainda, sobre o que o Técnico não disse implicitamente, mas que o indivíduo percepcionou por si e para si próprio. Desse encontro, resulta a escolha!

Esta “Fórmula Mágica”, aparece igualmente, em cada um dos orientados, de forma diferente para o técnico. Acontece que, a cada um destes momentos, o segundo junta novos ingredientes – as suas próprias vivências, as suas experiências e, claro, o seu estado de alma, e predisposição para a descoberta. Do outro e de si próprio. Ouvir, “Balancear” e ser ouvido. E “Balancear” de novo. Numa espiral interminável, numa riqueza de experiências a que não se pode ser indiferente. Ou se gosta ou não se gosta. Ponto! Foi num destes momentos de “descoberta” que aconteceu esta pequena história.

O Gabinete de Orientação e Saídas Profissionais de uma Faculdade não é, nem pode ser, um Guichet de Atendimento estandardizado, do tipo pergunta/resposta. Por de trás de um aluno, finalista ou não, está uma história de vida, uma família, uma estrutura (social e económica) diferente. E o técnico tem que saber interpretar os sinais. Gerir as expectativas, descodificar mensagens, “destorcer” informações recolhidas aqui e ali e desprovidas de contexto ou significado. E foi o caso! Sem hora marcada “só uma pergunta, Dr.ª, coisa rápida...”.

O “Manuel”, vamos chamar-lhe assim, foi entrando pelo Gabinete e olhando para a cadeira vazia à minha frente...

“Sente-se, pergunte tudo, mas com calma...” e, brincando um pouco, “...conte-me tudo, como se eu tivesse 4 anos...”.

Estava ganha a primeira etapa. Estabelecida a confiança!

O Manuel sentou-se e foi falando de “possibilidades de cursos de formação – sabia que os havia sem “encargos” ... de que estava a concluir o Curso de LLM (Português/Inglês), mas não como um futuro em si mesmo” ... “uma ferramenta, de uma caixa de múltiplas ferramentas” – “aconchegava eu”.

“Sim, uma ferramenta.... o que eu gosto mesmo, é da Área Social... até tinha gostado de ter escolhido ser “Educador de Infância”, mas os meus pais ... – estava na altura a “rebentar” o escândalo da Casa Pia... acharam que isso não era profissão para homens.”... Um sorriso tímido.... O medo do estigma – mais na família, também no aluno... Descodificar! Era preciso, imperativo, descodificar...

“Nada a ver... como sabe, as crianças necessitam dos dois pontos de referência: masculino/feminino...”.- fui-lhe dizendo. E cada vez mais, esse é um papel muito, muito importante.... demasiado importante, até.

Mais confiante, o Manuel avançou: “Agora até tenho uma proposta para ir trabalhar para uma loja que vai abrir... da mãe de um amigo, que fez um Profissional de Marketing”.... Não tem relação ... – continuou – mas como é uma área em que passam montes de miúdos do Secundário, e é uma loja de “marcas”, talvez possa passar algumas mensagens... Sabe, Dr.ª., nessas idades, os amigos mais velhos são muito importantes.... Para não se perderem...”

Estávamos os dois em fase de descobertas! O Manuel revelava-se! Afinal o “bichinho” do social não havia morrido.... e eu, tentava juntar as peças daquele puzzle.... Desenhava arabescos, como é meu costume, e mentalmente fazia as conexões – factos, casos anteriores, o eu e o outro, a interligação, a inter-ajuda, a pesquisa... os arquivos ....

“Marcas, disse marcas???” – Que marcas???.

O Manuel lá foi adiantando – “Todas as que os adolescentes querem ter e para isso arrastam os pais – quer possam ou não possam. Os pais acabam por ceder!”

Nesse momento, fez-se luz dentro da minha cabeça. A gaveta da minha infância abriu-se e nela encontrei o conceito do prémio pelo mérito. Na primária, uma professora muito sábia (decorriam os anos sessenta), conquistava a nossa atenção para o estudo aturado através de um alfinete de dama, colocado na bata, em jeito de pregadeira, onde suspendia, dia após dia, um conjunto de fitas multicores, cada uma representativa de uma valência – leitura, ditado, contas, redacção, etc. Todas (era uma turma feminina) ambicionávamos ter o alfinete completo. Era o prémio e o reconhecimento pelo nosso trabalho. Uma ideia simples, mas eficaz....

Os tempos são outros, os jovens adolescentes já não se motivam por cores de fitas – mas por “marcas” que os identificam face a um grupo de pertença!

Estava encontrada a chave do enigma! Porque não, uma parceria com a(s) marca(s), com a autarquia, com a escola e claro com a loja em causa?? Veiculei!

O Manuel estava atónito! Aquilo que eu estava a dizer fazia-lhe algum sentido? – perguntei-lhe.

“Sim, sim, sim.... muito, muito mesmo, nunca tinha pensado nisso...”

Eu continuava a pensar em voz alta:

Vestir a dita “marca” não passaria por ser condição resultante de um poder económico ou esforço económico, mas sim, o resultado de um trabalho estudantil, traduzido em aproveitamento, assiduidade, urbanidade, etc...
Vestir a marca, não seria para qualquer um.
As marcas “escolheriam” o seu público alvo, com base no mérito e na progressão de estudos.
Ao Manuel, caberia a difusão da ideia, e claro, a sua concretização! À marca, uma ligação vital com a Responsabilidade Social, a que nenhuma empresa de bem pode estar alheia e, à comunidade (escolar e familiar), a sensibilização para este assunto.

De repente, sorrimo-nos os dois e apercebem-nos de que tínhamos dado passos largos no projecto do Manuel.... um projecto inovador, a ser aprofundado, estruturado, mas com pernas para andar....

Saiu do Gabinete, com os olhos a brilhar e eu dei-me conta, uma vez mais, de que não existe Fórmula Resolvente - “Fórmula Mágica” - para cada caso. Porque cada um é igual a si próprio. E, claro, hoje senti que ficara mais rica!

Sexta-feira, 6 de Março de 2009

"Marcos-falos"

Enquanto viajava detinha-me sempre nos marcos quilométricos da estrada. Uma referência ao destino que, à falta de GPS, me ia conduzindo, dia após dia, a distâncias de mim (ou proximidades) na medida exacta que me aproximava do local para onde caminhava. No caso o espaço onde trabalhava à época, numa perdida aldeia Ribatejana, vizinha do rio.

Era Inverno, no seu início. Os dias estavam já pequenos, bolorentos e tristes. Os frios sentiam-se dentro e fora de casa. E nas almas; e nas palmas das mãos e nas espinhas/esqueletos e nos corpos. E nos corações… no meu, no deles…; no frio congelavam os sorrisos e os afectos. Como conchas, cada um a seu modo, engolia o molusco que o habitava, num processo de pré-hibernação. Envoltos em mantas, uma espécie de múmias vivas. Ali!

“O Inverno, Doutora, aqui é sempre muito triste, depois verá …”. Laura, a cozinheira foi-me adiantando logo nos primeiros dias que cheguei … Era então Verão, num Julho a torrar as uvas das vinhas circundantes. Num sol estuante e inóspito. Não saíam de casa; calor em demasia …, cansavam-se. afogueavam-se… “...mas no Inverno então, verá… isto é um desconsolo. um dó de alma.”

Via-lhe a verdade do discurso no olhar e nos maneirismos do corpo. E temia que tivesse razão. Temia o Inverno, retinha estas e tantas outras conversas, retalhos amiúde com que ia construindo as mantas trapeiras da minha própria velhice, e que guardava, a contento, em baú de sândalo. Memórias que dançavam agora à minha frente.

Respirava fundo, bebia a estrada, focaliza os marcos. Concentrava-me nos pequenos paralelepípedos de topo boleado a emergir da berma, altivos … na estrada e na vida. Alguns jaziam quebrados no chão de alcatrão empapado pela neblina matinal, nalguns locais gelo, estado vítreo…

Um dia lera de um autor que, a ele, lhe pareciam falos. Falos decepados pela metade (mais ou menos esta seria a ideia, que não me consigo sequer recordar onde e quando a imagem de “marcos-falos decepados” entrou na minha caixa de “parafusos desapertados" …). Pouco importa. Incorporou-se em mim e, em ausência exacta de referência bibliográfica, perdura per si a imagem: “marcos-falos decepados” no rubor da tumescência, no ardor de uma qualquer paixão, ou à falta desta, de excitação induzida, vulgo masturbação.

Viajava, conduzindo maquinalmente e, naquele dia, mais que em qualquer outro, os marcos e as conversas da tarde anterior com Bonifácio, queimavam-me os neurónios, ainda semi-despertos, à falta do café da manhã, e na falta de respostas sociais e socialmente certas.

O que era o certo? O que são as (in)certezas livrescas perante as realidades pungentes da vida? O que é lá isso de “envelhecimento activo?”. Afinal não era esta a temática que me havia num qualquer dia da minha própria utopia, proposto a estudar? - “Envelhecimento activo”… a que níveis? Com que níveis e grau de satisfação? Em que condições? … “marcos-fálicos” …

“...menina, somos velhos mas não somos capados como os porcos, nem sequer nos cortaram o pirilau, entende …, mas olham-nos como se fossemos. Para a maioria desta gente, ser velho é o mesmo que perder tudo. Perder a identidade, perder a vontade, perder a dignidade, inclusive perder o interesse por uma mulher …somos quase robôs, autómatos… “vá para ali, chegue-se para acolá” … lavam-nos e vestem-nos como se fossemos bonecos desarticulados, e, tantas e tantas vezes não entendem que ainda somos gente…”

Dizia-me tudo isto num rompante de palavras, como se, se o não fizesse, perdesse definitivamente a oportunidade de o fazer e, simultaneamente a coragem de, num qualquer dia, numa qualquer tarde, abordar o assunto. Dizia-me enquanto bebia o sal das lágrimas que lhe incendiavam a espaços o olhar mortiço. Dizia-me enquanto as face enrugadas, vincadas aos ossos e aos registos dos tempos, se enrubesciam de genuína vergonha.

Jaime olhava-me fixamente, tentando entender sinais de mim, ao mesmo tempo que olhava, estupefacto, o seu companheiro de quarto Bonifácio, sentado na cadeira a seu lado. Nos sofás em frente, outros idosos residentes olhavam distraidamente o ecrã da televisão, ou, em alternativa, dormitavam… não falavam, quase que não comunicavam entre si. Eram assim os dias de Inverno de que Laura me falara nos primeiros dias …

Bonifácio agarrava-me o braço, num gesto de quem quer uma bengala, de quem quer da parte de alguém a quem chama de “Doutora” a afirmação lógica e científica do “não despautério” que acabava de dizer …, então não lhes diziam sem dizer que já estavam meio-mortos?

Agarrei-lhe a mão. Transpirava abundantemente, gélida. Olhei-o nos olhos, não sabia que dizer. Envolvi-o num afago de olhar apenas. Não lhe disse nada… Continuou:

“...sabe, a minha mulher que Deus haja – que a tenha em bom descanso, que já se me foi há quase dez anos -, era uma companheira e pêras, percebe Doutora? Entre nós havia amor, e, nem a Igreja, nem o Senhor Padre (o que morreu, bem se vê...) nos viesse dizer o que, entre a cal das nossas paredes, podíamos ou não fazer… éramos crentes a Deus e casámo-nos e amámo-nos à luz dos Sagrados Mandamentos mas também muito para além do que nos queriam fazer querer ser a palavra de Deus para o matrimónio: gerar família, procriar, cuidar dos filhos e da fé...

Só para procriar? Não, Senhora Doutor (sorria)…, sempre que podíamos, ouviu? Às vezes – tanta vez -, vinha numa corrida à hora da janta aqui a casa por via de poupar a minha esposa a canseiras de ir levar-me a merenda ao campo. Vinha àquela casita além, que a Doutora sabe, onde antes vivia, e, perdão da palavra … que se lixasse a sopa, porra… que se lixasse ...

Comia um naco de pão seco na volta com um punhado de azeitonas … a gente a modos que se devorava um ao outro…. Ai menina … só se perderam as vezes que não foi assim (sorria de novo…); fui feliz menina, com perdão, Senhora Doutora, mas e agora? Como quer que me resigne a esta solidão, a este desamparo? Não fiz voto de castidade, não sou padre e mesmo eles, vossemecê acredita que são castos? Ora, ora … Valha-me Deus que tudo superintende… nos céus e na terra, nos mares e na guerra santa...

Não acha normal que ainda sinta vontade de amar, de namorar outras mulheres? Que ainda sinta vontade de abraçar e beijar outras mulheres? Ora diga lá, que a senhora deve saber se, por um homem ser velho – tá certo, tenho quase oitenta anos -, não tem coração? …”

Bonifácio não sustinha as lágrimas. Tremia. O lado esquerdo estava-lhe paralisado de um AVC, ia para mais de seis anos, mas em termos cognitivos e de memória estava lúcido. Gastava o tempo a fazer palavras cruzadas. Tinha feito o exame da 3ª já homem, à luz do candeeiro de petróleo - contara-me noutra ocasião. Ao lado Dulce, sua mulher, que o acompanhava noite a dentro enquanto remendava as calças farpadas dos trabalhos do campo e, que, nem sempre entendera aquela vontade de conhecer letras. Queria que se fosse a deitar . Entende, menina... perdão, Doutora? ... mas que mais tarde, quando ele já sabia ler e ela não, era pelas letras dele que ouvira lindas histórias…

“...contei-lhas, Doutora. Li-lhe as Farpas, O Cavalo Espantado… conhece, Senhora Doutora??? Ela gostava tanto... Nunca aprendeu as letras, nem grandes nem pequenas, não andou à escola em menina, em adulta não tinha tempo, pensou aprender quando fosse mais de idade ... e depois padeceu de cataratas ainda menos … ”;

Homem capaz de enumerar factos e datas, suas e da sua aldeia, sem vacilar. Capaz de ordenar rigorosamente quem havia chegado e partido do Lar depois de para ali ter entrado… A biblioteca a que as funcionárias recorriam quando queriam confirmar este ou aquele dado… mas, pese embora esta realidade, eram, tantas e tantas vezes, ainda que sem consciência do quanto o magoavam, elas as primeiras as que, em surdina, censuravam os seus olhares sobre uma mulher quando saiam em passeios, por exemplo. Na Festa da Flor, no Magusto... escassos momentos em que se viam rostos outros que não os dos residentes como ele e os delas próprias a quem guardava respeito como se fossem suas filhas. Suas irmãs. Sem sexo e sem corpo. "sabe Senhora Doutora, nas noites, nos turnos, oiço-as ali na sala a falarem umas com as outras, a rirem das vidas delas. Fico feliz, são a minha família agora ...". Mas troçavam em surdina, sim... E, disto Bonifácio, como de todas as outras realidades, se apercebia e com isto se magoava. E nada dizia. E tudo calava. E morria todos os dias um pouco. Agora estava Lícinia no Lar. Tinha sido sua parceira na dança no Rancho de Folclore Espigueiros do Tejo. Agora o seu coração palpitava de novo. Agora queria dar-lhe a mão e levá-la a ver o jardim em frente… e, porque não, ler-lhe a Morgadinha dos Canaviais, ou o Crime do Padre Amaro ...

“Acha o quê, Senhora Doutora? Que pensa? ...Bem sei que estamos os dois aqui, que não devemos dar maus exemplos … mas gosto dela, Senhora Doutora… vossemecê que me diz? Diga-me por amor da Santa Senhora D’Alcamé… é mau um velho ainda amar? É?..”…

“Marcos-falos”… Espigueiros do Tejo, 1Km. … A quantos o fim da estrada, Bonifácio?
Lx. Setembro 24, 2008

Terça-feira, 3 de Março de 2009

Dizer-te

Dizer-te hoje, como ontem, de promessas sempre afadigadas em espera por serem vida. Dizer-te de luas plasmadas nos contornos de uma boca a pespontar dos olhos de uma mulher.

Dizer-te que o Sol hiberna, que a sombra se agiganta e não se goiva, que se eleva, do pó a pedra, ave, tufão ou tornado descontinuo, na vindima prematura em que se escondem com prontidão os caminhos de ternura.

Dizer-te ainda da fruta dúctil e madura, das novidades fustigadas p’la nortada de ti.

Do gelo pontiagudos dos dedos com que, em penumbra noctívaga me desenhas em segredos. Do coração latente, de risos de fortuita semente jubilados à raiz do medo, no leito que se queda, em azimutes estropiados e membros colapsos p’la guerra.

Dizer-te

Criança
Flor
Mulher
Cansaço
Esfregão roto e gasto com que se abrilhanta o chão.

Da cera das abelhas, as colmeias, as obreiras… a ordem, a desordem do pranto, os prados verdes e logo vermelhos de fustigados.

Dizer-te da voz que se alimenta da flor do não florir. Das ideias marginadas em ruas rubras sempre inventadas. Dizer-te da coisa indizível, do inominável, da fome excedível de Columbina e Arlequim.

Dizer-te quando em mim, morreram mortas todas as vontades de ser palavras.


in Antologia Luso-Poemas, 2008, pág. 65, da Autora

divulgando poesia ... porque gosto. gosto muito!

Poema ao acaso