O meu blog de poesia

Domingo, 13 de Maio de 2012

Balbucio


(Republicação)

Pese embora a forma como chegara ao bairro, corriam os fins dos anos sessenta, o senhor Aquilino era estimado e considerado por todos. A fazer jus ao nome, já entrado na casa dos setenta, mantinha o porte e a verbosidade de sempre. Sem ocupação outra que não de vigiar a miudagem e arbitrar contendas entre vizinhos, gastava o dia para cá e para lá ao longo da linha branca orlada a amarelo ocre:  o “seu” bairro. Em passinhos mansos, como quem “não quer a coisa”, o Senhor Aquilino, às páginas tantas, tinha ganho, à boca pequena, o epitáfio de “o pisa-flores”. O “pisa-flores” para cá, o “pisa-flores” para lá…
Com o decorrer dos dias, dos meses e dos anos, quase todos se tinham esquecido do seu verdadeiro nome, ou melhor dizendo, daquele com que se tinha apresentado aos restantes moradores, quando, numa tarde alcantilada nas memórias de todos, a Vivi, Virgolina de seu nome, por ele se fez acompanhar de braço dado…
Teuda e manteuda, abrenuncio Santo Padre…, bem se via pelo andar da carruagem que este era o destino dela. Nunca teve dez alqueires de siso. O povo diz com razão: "muito riso, pouco siso". Por conta, é o que é. Uma afronta para o bairro. Somos gente pobre, mas digna. Aqui nunca se viu coisa igual…”
Vira. Mas a memória colectiva era curta. E apontar o dedo dava jeito. Enquanto se apontava o próximo não se falava das misérias próprias. Mas isso era “outros quinhentos mil-réis” e, do que vos falo hoje é mesmo do “pisa-flores”. Ora não nos desviemos então…
À porta do número 31, lá estava o Ford preto, chovesse ou ventasse, estacionado e empoeirado pela falta de uso. Só uma ou outra viagem à cidade se impunha e, nesses dias, nos que antecediam ao grande acontecimento que era o de ver o Ford de marcha à ré a levantar poeira por todos os cantos, Vivi e as manas, desdobravam-se em idas à fonte, lavando primorosamente o distintivo da sua “qualidade de vida”… zelando escrupulosamente para que, nem um só risco ofuscasse o fulgor do dito, quando descesse até à, Nacional 10. E, claro, nos lavadores e nas lojas, por onde passavam ou mandavam se não iam, sempre iam anunciado a necessidade imperativa do “Senhor Advogado Aquilino”, ir à cidade receber as rendas e vigiar o bom andamento dos seus negócios…
Por aqueles tempos não se sabia ao certo que negócio tinha o “Senhor Advogado”, nem que rendas lhe eram devidas. Fossem quais fossem, o certo era que, sempre que voltava, a Vivi ostentava o sucesso das itinerâncias e os dias da ausência eram sempre de grandes labutas. A casa arejada, encerada e limpa ao pormenor. As jarras enchiam-se de flores e Vivi dormia e andava de rolos na cabeça vários dias antes. No dia da chegada, defumavam-se as divisões com folhas de laranjeira e rosmaninho e mais umas quantas plantas secretas, por via dos maus-olhados. Vivi vestia um dos seus melhores vestidos, as manas gastavam meio dia a ripar-lhe os cabelos até ai enrolados em rolos, como já se referiu, e cuidavam para que tudo fosse a contento do “Senhor Advogado”. Os acepipes, o prato principal… O vinho...
E, ei-lo que chegava…
Nos dias seguintes ao regresso, quando os homens voltavam das fábricas e dos campos, lá estava ele, encostado à figueira centenária, com o cachimbo da “paz” na queixada adunca… Esperava-os para lhes falar da cidade grande e, como não quer a coisa, ir ouvindo aqui e ali o que lhe interessava ouvir: dos bulícios, dos desconfortos, dos anseios e movimentos dos trabalhadores: - “Confidente, meus senhores… estejam comigo à vontade, mas olhem o balbucio… falem baixo, nada de confusões, perguntem, perguntem que, no que puder vos hei-de ajudar… mas cuidado com o balbucio, homens, cuidado…É que há a lei e o espírito da lei, como sabem…”. Enfatizava o “balbucio”, vezes sem conta… O eco propagava-se em mim, desmesuradamente: “Balbucioooooooooo”…
Menina que era à altura, agarrava-me ao macaco que meu pai vestia, tremendo que nem varas verdes… Balbucio? Quem seria? Se havia uma Balbina, uma Ti-Balbina, podia ser um Ti-Balbucio… mas não me fazia sentido… Os “Ti” da serra eram todos pachorrentos e boas pessoas e aquele “Balbucio” a fazer fé no tom com que era prenunciado, pela certa era ou bicho ou coisa ruim… Temia, pois. E, porque me haviam ensinado a não me meter nas conversas dos adultos, não perguntava nada mas quando a noite tombava e as estrelas se escondiam no galinheiros das minhas “pitas”, escondia-me por sob todos os cobertores e rezava ao menino Jesus para que me livrasse do “Balbucio”… E ao pai, à mãe, aos primos, e aos vizinhos… E à minha cadela Traquina, e ao meu gato Jeremias… A todos. Todos…
Correram os tempos. As viagens continuaram. As do Ford, as do Senhor “pisa-flores”… E, curiosidade das curiosidades,  a aldeia deixou de ser tão tranquila…
A cada “itinerância” do Senhor Advogado, correspondia uma agitação sem comparação no antes… Homens estranhos começaram a visitar a aldeia amiúde. A visitar as casas de cada um. A vasculhar as casas de cada um, detalhadamente. As vidas de cada um…O banzé, o “balbucio” tinha por fim chegado sem aviso… Mais baixo que se pronunciava o cognome de “pisa-flores”, passou a correr outro cognome como senha … “o Pide…” Mas não a tempo de uns quantos, aqueles que haviam solto a língua naquelas conversas inocentes de fins de tarde sobre as figueiras dos figos de capa-rota, não terem “rebentado a boca”. Uns presos, outros admoestados e devolvidos provisoriamente à liberdade…
Agora já ninguém confiava a disputa das contentas ao Senhor Advogado, nem sequer paravam por perto dele. Agora era o tempo de cerrar fileiras a estranhos ao bairro. E cerrar a boca e abrir os olhos e os ouvidos. E medir o rigor de cada palavra. “da lei e do espírito da lei”, dos rumores e dos balbucios, do “diz que disse”.
Não disse! Não ouviu! Não viu! Nem sabe quem viu, ouviu ou disse…
Estancar a verborreia num garrote apertado… Apressar o passo!
Afinal, foram dele sempre as palavras “olhem o balbucio, meus senhores, olhem o balbucio…”.
                            E minha a intuição de que “balbucio” só podia ser coisa ruim…




Trabalho fotográfico: desconheço o autor

Domingo, 15 de Abril de 2012

Eostre...

"Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa."
Sophia de Mello Breyner Andresen in  Coral 



talvez as minhas glícinias estejam à minha espera, disse-lhe de rompante. repara, aqui só os cães ladram de igual maneira. presumo que assim seja. corrigiu-se de repente. e as galinhas... quem sabe?
debicam o chão em busca de minhocas e não lhes vejo forma distinta das que escavam o quintal da minha casa...
levantou os olhos. sentiu que o romance minutos  antes  sustido e  contido a concha dos seus dedos, cúmplice perfeito e abrigo do tempo, caía desamparado, ali, na terra das ameixas verdes. não tentou sequer o gesto de o reerguer. na noite antes a fogueira a espavorir o espírito do Inverno. a fogueira onde ardiam todas as imundices da aldeia, não daquela, mas de uma aldeia global onde tudo, por mais distante, lhe  contundia a pele e a alma. ali, entre cada chispa, na pira dos fenos, havia a demonocracia do quinto dos infernos. 
[Feliz aquela que efabulou o romance/Depois de o ter vivido/A que lavrou a terra e construiu a casa...]  
de novo Sophia. esfregou os olhos com as luvas de pelica, afastou o fumo. aspirou, antecipando, o odor malva das glícinias. compreendeu o porquê das vestes do tempo de páscoa. a universalidade dos gestos.  de narinas abertas. como as bestas nos pastos,  em destemperança de febres, desinteressou-se da cor do vestido, da lingerie que, como uma bofetada  de verdade e desencanto, lhe mostrava a crueza e a realidade das coisas. uma nudez de mágoa apossou-se do brilho dos seus lábios que, e não obstante, maquinalmente, se esforçavam por reproduzir vocábulos estranhos em saudações e  votos  pascais - sorria, iluminando a noite. com as mãos abertas rasgou o portal do inverno, 
foi o sorriso que me abriu a porta do teu mundo, brando e másculo. pressenti-te o salto para a frente, a timidez e o espaço-porto  inabitado. adivinhaste-me deusa de aurora, Eostre, chamaste-me. e eu ouvi. seremos deuses, meu amado? e foi aqui, na terra das ameixas verdes que nos fecundámos pela primeira vez. e a esta terra voltaremos na nitidez dos olhos e dos pastos. construiremos a casa,  e nela a parede dos sonhos;  as labaredas hão-de pintar os dedos quando bebermos da resina da floresta,  tu colocarás de novo sementes no parapeito da janela, não sem antes lavrares a terra,  estará frio e serei pássaro vagaroso, 
a debicar tímida da tua mão...
Eostre aproximou-se perigosamente do fogo. dali, ao centro da pira, distavam curtos passos. lançou-se no desafio de viver em consonância com a ocasião e com a sua própria possibilidade. à distância, media-se com as ervas cobertas de neve, com a liberdade das crianças pulantes e ávidas, ao ser redor.  antecipou a manhã líquida, o branco dos telhados e dos beirais. tudo o mais, detalhes preciosos,  eram-lhe vagar de lembranças. 
cerrou as pálpebras. um fogo interino tomou-lhe conta das entranhas como da primeira vez em simulacro de nevoeiro,  a aspiração de liberdade - o tempo em que gostava de passear no jardim do seu final de tarde. 
sabes, andamos à cabra-cega em torno da fogueira, como crianças, e, o ovo da Páscoa, o tesouro que procuramos, está tão dentro de nós. são vãs as riquezas outras, e meu o terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo, pejado de malfeitores - corja de pavões a pavonear as asas, criaturas úbiquas, diabólicas  e amargas, emplumadas em rendas dissimuladas, 
disse-lhe, por fim, que a riqueza que ambicionava encontrara-a sem procurar.
depois, aguardou o regresso  das horas,  devolveu-se à realidade.  quando a lua em quarto minguante incidiu sobre  os molhes de feno enrolados como novelos sentiu-lhe os dedos, a sua espada de carne vulcânica a romper a aurora. e ele chegou, rei de um reino de que era deusa e princesa 
"uma das minhas maiores riquezas és tu, [Eostre], meu amor. És o meu tesouro secreto ..."
respondeu-lhe num gemido de lava: tenho um rio de ternura a crescer-me dos dedos, meu amor, e não sei como dizê-lo, se não sendo[te] deusa etérea d' alvorada... a origem das espécies é controversa, tudo converge para a tua chegada. no ciclo das colheitas a derivação é regressiva, da semente ao pó, e eu, bem sabes, quisera morrer de amor - agora - antes que seja noite, que seja dia ... e nada temo,
              talvez as minhas glícinias estejam à minha espera.


Eostre deu dois passos. seguiram-se mais dois, mais curtos, mas determinados. um grito raspou a aldeia como um assobio. labareda e fogo em tons de malva.

Inédito

Sábado, 24 de Março de 2012

um diálogo improvável


“... Não necessariamente criar os carneiros, pentear a lã, tingi-la e marcá-la – mas prazerosamente apossar-se de tudo o que está pronto e, com esse tempo poupado, ir muito longe”.  
Katherine Mansfield 


senta-te comigo, Lígia,  dizes, Sempre tão longe a abóbada celeste, o trigo amadurecido de fardos atados e os poentes enterreirados e prontos, como meadas lã  retinta em  fluxo-refluxo -  tempo de inteligência terrena em que, algo inconsciente, me perco, e me elevo,   num  novelo dobado ao novo  tempo, tomado a ti. é primavera, dizem os alfarrábios, os borda-água, sei lá … e, deste tempo, e sob a sua lâmina implacável descida sobre a nuca,  o que  nos chega (e abastarda), dementes e precários,  e nos são rios rápidos da memória,  linfa e lava, em torno do eixo contuso do nosso próprio imaginário.  e, nele, hoje,  como no antes, esta certeza fendida de que,  em certos dias clareados me embriago de ti, do  teu tejo, dos teus sonhos,  das planícies-planuras do teu corpo de searas. sonho-as
de verde lavra incendiadas –  expulsão de um paraíso; sulco uma barca de bruma em águas irradiantes 
de vida e verbo,  São rios apenas, Ou ilhas,  tu sabes, Não, não são,
são olhos e miragem, como os teus, em meus olhos de argila e barro, e deles  a liça desabrida de espelhos, dos sonhos e batalhas -  fusão de núcleos ancestrais donde despertaram  os vocábulos. como um jogo, uma pedra, um antídoto do que nos assombra (e nos ensombra)  em espanto:  nós de sete-léguas, a humanidade,  e o mar deste país,  que, marinheiro, se afoga na corrente das próprias lágrimas.
 a salgar as lágrimas. a sugar as lágrimas em boca própria, 
não te inquietes, princesa, é, porventura, princípio de nova vida
está sol e tu estás perto, quase te toco, quase te cheiro o calor  ardência da  tua pele macia. da tua derme, bainha do meu sabre. estancas as vagas do mar morto (que eu invento) desenhas  trilhos em que aconteço a ladear-te na praia, escondes-me no teu sono, a cidade limpa e larga, desperta no teu colo  e adormece  apudorada  quando me embalas teu num berço feito de graças,  Senta-te comigo,  avariei todos os mecanismos de todos os relógios do mundo. parei o tempo para que não se escoe como areia fina entre os teus dedos longos,
ouviremos
as quatro estações de Vivaldi, cingir-te-ei num abraço intemporal no instante exacto em que  os teus lábios
vagarosos
forem pássaros  cor de lima –  a coisa nomeada – , a língua, a tua língua,   tiver o travo  a sal e menta e  a saliva se adentrar na nossa garganta  e me tomares na simplicidade terrestre de desfolhar primaveras na espuma de minha barba 
e as claridades subirem alto
ao ver-nos de regresso ao inexequível espaço do começo...
senta-se aqui, minha amada, que a primavera chegou  chuvosa no assario desta hora  -   tão velhas as palavras, como ângulos justapostos dos pátios mouriscos d'alfama  encobertos de moliço e sargaço
  sem luz, 
quando não estás,  
e um mar de  ruídos  me amordaça os tímpanos
e me fere os lábios de búzios aguilhoados, Sabes,
no meu corpo de dor, em certos dias, os dedos das fadas roxas gemem na ombreira das portas.  e fazes-me falta... senta-te,  pois, comigo, Lígia, que nos importa o frio, a chuva que se demora e se dilata a verdejar as searas,  se, no sopé das colinas de papoilas despertadas  se adivinham nossas as vontades e
e a força vitalícia 
das palavras.
 ... recordas-te, Lígia, de como começou a nossa história?   


Imagem da net

Quinta-feira, 8 de Março de 2012

Uma certa lentidão tão necessária


“ Vi as mulheres azuis do equinócio
voarem como pássaros cegos;
 e os seus corpos
sem asas afogarem-se, devagar, nos lagos vulcânicos.”  
 
Nuno Júdice 
...
levanta a cabeça, Violeta, ordenou-lhe. levantou.  um olhar cristalino encheu o ar, espalhou essências de baunilha e caramelo a céu aberto. 
 pese embora o facto de o julgamento do mestre lhe ser  sempre algo desconfortável, o certo era que, havia de concordar:  também ela se via assim  -  um ser de luz, de cor, de desenho irradiante, de antenas rectilíneas a culminarem na bola do mundo. enormes... 
frágil, contudo.
-  sem novidade te repito o que já te referi por bastas vezes:  vejo-te como uma espécie de borboleta. tal  as vejo,  olho-te,  e, por maior que te queiras aparentar, aos meus olhos, pressinto-te, como  a elas,  igual fascínio pelo fogo, do que decorre que, na ânsia de veres mais perto queimes (tantas e tantas vezes), dramaticamente, as asas - explicava o mestre à pequena feiticeira que o escutava atenta e cabisbaixa,
o  mestre, sempre eloquente, continuava nas suas analogias impiedosas. se esses  não fossem preditores bastantes para a identificar com aqueles seres do reino de Deus, outros haveria de engendrar, tão ou mais verosímeis que os primeiros,  capazes de persuadir a sua discípula da importância de saberes e competências, mas também,  sobre e a  respeito  de como o controle dos mesmos eram, na face do reino, tão ou mais importantes, que os primeiros. 
prolixo, haveria de se socorrer doutras teorias irredutíveis face às quais, Violeta, na evidência, se "emendaria". a começar por fazer a sua pequena feiticeira entender, de uma vez por todas, a vital importância de reconstruir o passado para perspectivar o futuro. olhar-se em espelho, não naquele de aumentar defeitos da bruxa má, mas no mais fiel e fidedigno,  que conseguisse encontrar  - nos lagos ao redor dos olhos do amor,  dissera-lhe um dia. entendes, Violeta? entendeu!...
prosseguia o  mestre,
... a biologia classificou-as, como julgo saberás, na ordem das lepidópteras.  dir-me-ás apressada, como é teu hábito, que tenho eu com isso? realmente, no imediato nada, mas tudo se liga, pequena Violeta, e, quando uma mariposa abana as asas aqui, algo acontece no reino da Dinamarca. assim sendo (não te distraias, vá lá,  concentra-te), ...
a propósito… já te falei de resiliência? sim? ora bem… e de Newton? claro que sim. sabes porque  conseguia o domínio das ideias? por ser  inteligente?  também sim,  claro, mas, acima de tudo o mais,  porque se concentrava, se focalizava,  até à solução de um enigma, desfocando tudo ao redor. Violeta, tenta acompanhar o meu raciocínio…
a biologia classificou-as, repito, na ordem das lepidópteras, e se, no mesmo grupo (ordem) das primeiras, estão as traças,  e se  te imponho decisão rápida,  diz-me: com qual das duas te aparentas mais? em ti deixo o livre arbítrio da escolha. fá-la  no uso e em consciência da existência  de dois instrumentos fulcrais:  lógica e intuição. demonstra-te e descobre-te...
bebia o absurdo do diálogo. intuiu de imediato que, fosse qual fosse a resposta que viesse a dar, o efeito final seria, invariavelmente,  o mesmo:  uma espécie de dedo apontado a si, faca de dois gumes. não seria então a resposta o mais importante,  mas sim a dialéctica, o argumento, a força de defender as convicções de escolha. esboçar o maior número de combinações possíveis,  fazer sua a ciência da aula anterior, o tal palavrão que tanto lhe custara a memorizar:  heurística, a arte especial de aprender a aprender para tirar conclusões.  recordou-se, ainda,  de que, quando apontamos um dedo na direcção de alguém, são quatro os que retornam a nós. assim pensando, concluiu  que seria por ali que daria volta ao dilema da escolha. 
mediu,  uma a uma,  as dimensões de ambas:  borboleta e traça. o dia e a noite a que estavam, respectivamente, e por natureza, adaptadas. a metamorfose. visualizou-se. focalizou-se. foi quando se deteve: reconstruir o passado permite evoluir ... ela era uma borboleta, obviamente. a sua metamorfose não se dera dentro de um casulo mole mas sim segregada em crisália rígida que, a pulso, rompera. agora olhava-se em espelho e via-se, corpo fino e alongado,   a voar livre pelos prados,  a morrer no fogo de viver, vivendo,
foi quando, sabiamente, recordou ao mestre que o mais difícil da vida não era certamente crescer num corpo pronto a crescer, crescendo. o difícil,  o mais difícil, mestre, disse-lhe, é aceitar o processo de transformação, a metamorfose. lenta e dolorosa,
difícil, na realidade,  as sucessivas passagens de ovo a centopeia, desta a crisália, e,  por fim, irrompendo o céu ao redor, o azul ambicionado,
conhecer a música do vento, a dança das folhas, 
até à última nota, 
e,   insecto alado,  voar  sabendo que, uma vez liberta das asas das esperas, apenas e tão-só,  (nos) sobra o tempo efémero de escassos dias...

assim dizendo Violeta abriu as asas, subtis asas,  no feitiço de um fogo que era delaera ela própria. voou, rasgando a tela. o fogo era um lugar ao lado…na casa do osso,  na medula de um instante lento e vagaroso 
a que se dada, íntima, serena...

o mestre havia desaparecido permitindo-se a si próprio o voo partilhado na temporalidade de um tempo dividido de transposição das vagas sobre a plenitude de si.  repousou-lhe a  aflorar-lhe os lábios numa certa lentidão tão necessária 
        e falou-lhe 
              pela sua boca. 

Imagem da net.
Texto de 2009, Inédito. 

Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012

carbono 14

deambulava o tempo das estacas. a borda d'água das frâmeas de espadachins,  que, sem rei nem roque, lhe determinam o motivar das horas. era noite ainda no convés dos barcos. os arrozais então  tomavam a cor verde da novidade.  no mais interino da barriga de suas pernas sentadas na margem da cama havia, a navegá-la, nas veias e nas artérias, na corrente sanguínea, um rio de leite e mel, uma essência de baunilha. as coisas puras, a lã e a lava. e, rente ao chão subido, a longitudinal placenta que a protegia, temporariamente,  do íngreme esquisso de que se tingiriam, inevitavelmente, as unhas e todas as extremidades em fim de curso. as linhas férreas. a cor fosfórica.  constatação prenhe de que  apenas um único fosforo bastava a alumiar os dias de verdade.   sabia há muito que o tamanho dos sonhos era sempre, inevitavelmente, na raça humana a que diziam os livros, pertencia,  inverso ao avançar da idade
 [de que tamanho são os teus sonhos, meu amor? do teu tamanho.  ah, por isso estou a mirrar... porra da idade... riram juntos a entrelaçar as polpas dos dedos, a mão dele a invadir o macio do colo, o verbo, a vontade.  a mão dela, coroa consentida e desejada,  sob o pijama da noite... riram de novo. eram meninos... tonta, minha GRANDE tonta, os sonhos não têm medida ou idade. têm sim, tudo é mensurável. sabes do carbono 14?...  riam de novo, meninos, na enormidade do sonho, na idade das pedras,  a ladear(em)-se, caminhos...]
 ... sabia, como sabia que a ocultação da verdade, ainda que de si própria,  lhe roubava, irreversivelmente, o poder de agir sobre o que quer que fosse.  o poder de assumir a responsabilidade. e que, ao invés, a interceptava, gume, sangue coagulado na espada ferrosa da culpa.
não é o verbo que nos liberta, sabes? - disse-lhe. tenho por certo que, em muitos de nós, só o silêncio  fala verdade. não adianta negar o leite derramado nem o choro pousado no beiral do ontem. adiante, andamento, disse-lhe de rajada. estás a ver, qual eu vejo, a claridade dos meus olhos sobre as tuas mãos pousadas? guiam-te! diz-me, vês? é-te vertical a memória como a força das rosas a regurgitar das podas. és-me o rio azul e força dos meus pulsos, és-me…
num espaço contrário à navegação dos dedos, Perpétua agia ao nível das convicções próprias, sabendo que, só ai agindo, a mente teria o poder de criar e destruir, de fazer acontecer. levantou-se vagarosa, uma chávena de leite, um punhado de nozes picadas, uma maçã,  olhou o espelho de fronte [o lençol do rio]. não havia acasos na natureza,
os desafios não foram, bem sabes, algo que o universo sábio criou, em exclusivo, para mim ou para ti – são algo que a todos nós acedemos, comuns. vencê-los é obra nossa. obra individual.  um novo punhado de nozes picadas, a fome da boca o tilintar da chávena contra os lábios;  despertava - "aprender é quando o comportamento muda em função do conhecimento", disse-lhe. não aceito desculpas. nem boas, nem esfarrapadas. todos temos, acredita, mil dramas em nossas vidas - o que nos torna maiores, mais fortes, é a forma como respondemos a cada um.  a forma como assumimos a responsabilidade. e, obviamente, determinamos as causas a montante da foz. todo o efeito tem, claramente, bem sabes, uma causa. digo-te ainda, da importância de avocarmos a propriedade de nós próprios. totalmente. a minha vida é minha, e tão só. importa agir. não reagir. já te falei da diferença? do condicionamento? a deambulação no tempo das estacas, pode ser, por vezes, escolha minha. é um tempo dentro do tempo. só nos muda aquilo que fazemos de  forma consistente e continuada – dia após dia, em dias sucessivos,  como os ciclos das colheitas. hoje eu sei o quanto estou próxima dos meus sonhos. e para que o saiba, entendes, tive de entender o quanto me afastei, e por quanto tempo, deles mesmos. medir o intervalo, o diferencial. quantificar. qualificar. o conhecimento é, dizem amiúde,  poder. eu retruco, baixinho, ao ouvidos das ervas e dos moluscos, é apenas poder potencial. se não aplicas, perde-se, como as águas fecundas das primeiras chuvas, no gretado das terras não aradas - entendes agora porque se preparam os terrenos, se batalham os braços, antes que se deposite a semente no ventre das terras? 
de que falo afinal, dirás. de tudo e de nada. tudo se liga, tudo goza, de alguma forma, da propriedade comutativa  da matemática, e, sendo eu,  como sou, uma incorrigível romântica, sê-lo-ei, quiçá, comutativamente, uma insurrecta revolucionária na gestação das palavras.   há nos meus olhos uma herança de verdade, e nos meus pulsos, a pele dos teus, as asas de borboleta, tangenciais.  afinidades tribais, um conceito de grupo, um pulular de signos, de chinelas varinas, tamancos andaluzes,  tambores e gritos, como batuques,  a dar ênfase ao poder de agir em comunidade. e, esta sociedade anónima, individualista e grosseira que, em dias outros, se entorna como visco a grudar-me as asas, a grudar-nos as asas, dizendo que, cada um de cada um, se deve bastar a si próprio, sendo, na civilização moderna, pedra sem datação precisa, estaca natural da borda rio, à mercê da técnica do carbono 14. falo-te, meu amor,  da memória colectiva…dos teus lábios, do selo rima branca das palavras, do cuspir macio das ondas contra a falésia, contra as narinas das bestas que se apascentam na minha lezíria, quando  um cacilheiro passa... 
falo-te...
Perpétua  não terminou a frase. nem carecia. afinal o silêncio era quem, de entre todos dos sons,  melhor lhe revelava a verdade. o silêncio, rugido ininterrupto do universo
e de si própria.


Fotografia: Konrad Zagloba

Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

Endeviches tinha os olhos largos

Endeviches tinha os olhos largos, diziam na aldeia à boca calada. via mais longe que ninguém, e, ainda as coisas estavam em margens inventadas e já ela, em premonição, quem sabe, lhes divisava contornos. se fosse caso disso,  desviava-se delas a sete-pés. talvez por isso nunca tenha casado, nunca tenha arranjado homem, diziam uns. talvez por ser uma espécie de videira rupestre,  torta e retrocida, a reflorir a cada primavera no círculo das pedras da aldeia de crescer, diziam os mais avisados – o seguro morreu de velho e,  de velha,  haveria Endeviches de morrer.  briosa, tinha gosto de assim ser.
 manienta, contudo,  terá sido por via dos "olhos largos" que embicou de cismar que o vizinho de baixo tinha um caso com o  da courela de cima, e, ela, ali no meio,  ficava agravada só por imaginar o que, ora em cima, ora em baixo, os dois sempre juntos, estavam a aprontar.  dona de um dialecto sensível, acomodou a fala na algibeira da saia.  por ter olhos largos,  quando entendeu o caso, armou o laço a ambos. no dia agendado de um tempo de vindimas, ébrio ao paladar, e em que, junto ao pelourinho, na peneira da tarde,  era obrigatória a vacina dos cães, entregou os seus, recolhidos de vadios, ambos, um a cada um, com a recomendação  solene de que jamais os largassem em que circunstâncias fosse  – seria um enorme favor, enfatizava,  abalizada à corcundice naquele olhar só dela, a luzir de penas, porque, em rigor, e por causa maior,  não poderia  ser ela mesma (e o quanto lhe custava) a portadora dos ditos. como assim? ora bem  vê, vizinho, por ter de ir a banhos na hora da maré rasa,  em hora certa, sem falhar uma virgula, recomendação do médico, do curandeiro, e, com perdão da palavra "do bruxo de subserra", repetiu a cada um, enquanto se soltava da trela, primeiro na courela cimeira, e a seguir, na de baixio. depois, devagarinho, deu três passos, rumo à várzea de beira-rio, não sem antes, onde os olhos lhe  foram aves e o ângulo dos ossos lhe doía, deixar  a bengala pousada contra a soleira da porta.
bebeu de um cantil a embriaguez da origem das causas justas, expurgou-se em diálise melancólica. metamorfoseada, como se, repentinamente, tivesse retirado um peso  dos ombros, como se, por obra e graça do divino, o pensamento fosse vassoura do tempo e  resina arábica a recompor colagens soltas, Endeviches, era moça em novidade de uvas. repuxou o corpete até às ancas, redopiou sobre os calcanhares e tomou caminho. para trás ficavam os cães e os seus vizinhos.  nos olhos levava um névoa, um gemido manso, mascarado de poesia, e, da vilanagem dos homens, uma dor tão funda  que comovia  a tarde.  a mesma tarde que,  recíproca, se nebulizava em gotas de orvalho nas árvores de pele descoberta. 
na escala da floresta ouvia nítidos, quão longínquos,  o ganir dos cães "os cães ladram, a caravana passa" .na verdade – sorria de si para si, na sensorialidade do tempo breve  – ,  recordava-se agora de uma falha  imperdoável  nas suas recomendações: não lhes falara, nem sequer ao de leve,  de que, cães vadios, o ódio entre eles era antigo,  tanto quanto o amor de  D. Quixote a Sancho Pança... 

Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

imagino

ainda não te vejo,
cultivo, ad eternum,  "o amor dos cegos",
a paixão pelo interior, o íntimo, o crepúsculo das fragas
em que decaem os meus e os teus olhos, as vozes de Pégaso, o risco e o traço da ilha dos amores
onde a luz se estilhaça e  não cede, parca, ao penhor da rotina, e se multiplica, emancipada,  em cada fim de tarde, 
imagino [te]
Pégaso, o acurado  do trato,  infinito,  infinita constelação boreal em palco de  ardósias, as leituras,  a sinalética,  os códigos, a pesquisa das raízes onde despontam os sinos replicados em sons ciciosos de vento a tons de rosa-púrpura.  perguntas-me,  amor, que forma tem o vento? voa,  voa  livre, livre, quiçá, digo[te], voeja além das pálpebras, abafa a fala melódica dos cânticos natalícios - anuncia, qual estrela,  a vinda dos reis magos, o ouro, o incenso, a mirra. os cânticos natalícios, ’inda? inquires-me, em incredulidade nata,  sim, pois sim… recordo-me de tantos natais à deriva, sabes? e do cansaço?  sim, também,  por certo,  confirmo-te. perpetuam-se, entoam-se agora,  como ontem,  nos musgos e nos presépios da  minha aldeia, é meio-dia, meia-noite, não sei,  não sei, perdi-me do tempo no tempo  exacto de dois ponteiros sobrevidos (e no seu antónimo), a porfiar  novelos à roca de fiar horas  dias a fio,
sem sentido,
por instantes, em exegese sumária, recordo-me de um texto, de uma melodia, de uma  flauta de osso, de ser
inverno na estação dos pássaros
de uma asa, de um rasto (eu quase bicho)
de um concha,
e de um porto d'abrigo,  estrela a preceder[me]o acto.
.
.
.
ainda não te vejo, as borboletas soltam-se-me do estômago à boca, rodeiam-me os lábios numa dança tribal,  iniciática,  
as sílabas, as  palavras. soletro-te,
imagino
o teu corpo a tomar conta do meu, e, sem  que me impeça,  deixo-me levar na serenidade  das tuas águas - daquele que nasceu do rio, que me é dia-após-dia, chama e claridade. encolho-me, mínima (sabes-me assim, caprichosa. prepositiva, contudo.  talvez, indefesa, menina). sabes-me, mulher-amor-maior, ternura mansa e tenra na textura de tuas mãos rugosas, adivinhando serem, e me seres,  a fresca brisa, a água sacarina,  a bruma  leve que lava  e expurga o entulho dos calhaus rolados em alto mar, e se faz,  per si, dourada  areia cristalina
da orla marinha, imagino,
as tuas mãos nas minhas - de mãos dadas, mi-amada, não tenhas medo, dizes, haveremos de encontrar a chave de todos os cárceres, haveremos de recusar a solidão profunda dos acompanhados,
anuo - cada vontade tua é uma ordem, que acato, por vontade própria -  felicidade suprema de  ver  um sorriso a provir  na matiz celular dos teus  lábios, "o amor dos cegos”, a luz, a luz, o devir.
em êxtase
subo os meus olhos baixos, a ser-te semente terra e esteira e lavra - olho-te semeada na palma da tua alma.  olho-te,  já te vendo. sorris e sei-te decanto,  cintilação profusa, plena  e nutritiva, da nascente, sei-te,  limo, sargaço e verbo.  no princípio era o verbo - e o sol, bem sabes - no princípio era o sol - és o meu sol,   repito [te]...
aninho-me mansamente no sorriso de teus lábios,  o chão a não suster-nos de pé, eclosão do universo, a garganta da serpente, a lava, a seiva jorrante,  primeva.  oiço-te  rente ao peito, reconfortado. ecoo em ti:  na tua voz  o meu nome tem a textura de um corpo acabado de nascer. o veludo de um ventre de mulher.  a maciez de uma pétala. é quanto importa,
       "o que fazemos na vida ecoa na eternidade..."
emudeço, humedecem-me os olhos, que, cerrados,  não podes contemplar. sorrio-te, a sublinhar-te, indelével. irreplicável,
ainda não te chamo amor porque não sei sequer como haveria de se pronunciar… apenas sei de um espaço onde os teus ombros [me] foram aves,  magia, incenso, ouro e mirra, e que,  na nobreza e gesto dos reis magos,  se perpetuam, eco,  fulgor vivaz de sábia eternidade.
imagino...


Imagem: Vladimir Dunjic

Nota post scriptum : Flauta de osso
"Os mais antigos instrumentos existentes(...) feitos de ossos de rena (10.000 a.C.)..."

Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2011

"o que fazemos na vida, ecoa na eternidade ... "

na realidade, somos nós os maiores obreiros das nossas vidas. cada dia, dia-após-dia, pela eternidade...

o futuro começa hoje, agora, já. começa dentro de cada um de nós. na força e na certeza de que, dos pequeno gestos, nascem as grandes causas.






a todos um 2012 pleno de boas energias - dádiva sincera e respeito pelo outro. em tudo o mais, prossigamos, passo a passo, certos que o universo devolve sempre o que [lhe] ofertamos...

Bem-hajam, meus amigos, Feliz Ano Novo!

Mel

Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

A dança dos pares

"Dançava, às vezes, por dentro de si mesma."
Baptista-Bastos


Dobrava-os meticulosamente,  atenta às nervuras, aos canelados, aos canhões, estes últimos de diferentes alturas. Em tudo o mais, aparentemente iguais -  uma tortura para quem gostava que não ocorressem falhas, trocas impróprias. Sobre o leito, meticulosamente feito, as roupas puxadas e repuxadas para que não ficasse vinco algum, eles, os peúgos  pretos que tanto a irritavam. E, ao lado, a tortura análoga das suas próprias meias, que, sem saber muito bem como, nunca pareciam emparelhar. Como se, a cada viagem rotativa por  dentro do tambor, exactamente como lera um dia de uma conhecida escritora, houvesse internamente ali, invisível mas eficaz e persistente, um monstro acéfalo, devorador que, não só surripiava alguns dos pares, como, pior, deformava, relaxava e descoloria outros. E talvez ai residisse   o mais nefasto daquela história - no descolorir da imagem, no prolapso dos elásticos, no desbotar a cor inicial numa espécie de pasta mole, aguada, se perdia, irremediavelmente, e sem retorno possível,  a forma das coisas. Ao seu olhar, fica ali algo sem préstimo, sem brilho e sem pujança. O amorfismo era, sem margem à dúvida metódica,   no ser humano e na matéria invertebrada de um modo geral, algo que a tirava do sério.  Amorfos seriam, por conseguinte, os pares dispares ali expostos.

Maria Leonor levantou-se. Num gesto desconexo empurrou os  parceiros sobrantes para o fundo de uma cesta onde, regularmente, colocava a roupa por passar a ferro. O vime entrançado dava-lhe, ainda que ilusoriamente, a segurança de que a obra prosseguiria a bom termo - o engomar, bem entendido.  Decidiu que não gastaria mais tempo a emparelhar peúgas -  demasiado precioso lhe era o tempo. Do lado direito chegava-lhe, em jeito de abraço, um blue.  Não um qualquer som de um qualquer tema, mas sim um blue. Sorriu. Na verdade, a sua vida estava  incessantemente pautada por "não coincidências". A forma musical agora ouvida era-lhe “utilitária“.  Atentou no uso de notas cantadas e tocadas numa frequência baixa,  nas estruturas [sempre] repetitivas.  Construiu mentalmente um puzzle de imagens metafóricas.  Veio-lhe em memória a fé, a espiritualidade, as comunidades escravizadas, e, óbvio, as subtis manifestações de protesto contra  a escravidão servil  dos dias.  Os caminhos ásperos e palcos aveludados.  E os passos,  os pés, agasalhados e simétricos, aninhados  interinos nas formas melódicas, na harmonia dos traços e das notas -  as formas  puras de escapar dela... 

Deixou-se impregnar dos sons, de todos os que, vindos dali, a tomavam sua. Os pés, soltos das sapatilhas imaginárias,  desnudos em revelação do calcanhar de Aquiles afagaram a madeira, provocando-lhe uma onda de calor nas pernas igualmente desnudas. Solitária na  dança, rodou a roda dos enjeitados, determinada a ser
água, pássaro ou tornado.  Como as meias que escondera das vistas há minutos,  irmanada na diáspora, na concepção binária de diferença,  no deslocamento proximal a que se obrigava a si própria da, e na,  até então,  zona  íntima de conforto. Determinada à luta  volveu a si: abraçou-se,  em cadência, dançou  a dança dos pássaros a pique, dentro de si própria, dentro do turbilhão ciclópico das margens incomunicáveis, das  águas íngremes,  até à exaustão. Por fim,  já a noite ia alta, tombou,  algo binária,  como folha rubra e  lívida,  na cama própria. Desejou o esquecimento mitigado do cheiro,  do som, do sal da pele, em suma, o sono dos justos. Como um disco riscado, o blue fez o resto.

Acordou matinal, dando-se conta que, no dobrar de pares apenas suas as nervuras das folhas persistentes a revestir de incenso e mirra as lombadas dos cadernos da vida. E nada mais.





Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

"sete-estrelo e umas botas"


(REPUBLICAÇÃO)

Mirou-as demoradamente. Acariciou-lhe o couro com o olhar. Deteve-se no picotado do cano, na cor de terra. No brilho de coisa nova, nunca usada. Depois, na calma que a vida lhe trazia aos poucos, olhou o horizonte, em ocres iguais. O ocaso chegava já, num Inverno que ainda não era Natal, e, contudo,  já se anunciava em cada rua, em cada esquina. Olhou o céu limpo em busca do Sete-estrelo. Desde sempre lhe ensinara a procurá-lo: azul, qual reflexo do mar que a habitava…
Agora eram suas, como lhe prometera. Não, nunca as usara. Quando as terminara, por fim, os seus pés não cabiam mais nelas. Crescera em demasia…
Abraçou-as, mediando o tempo desde que as vira a primeira vez, por sobre uma das múltiplas prateleiras empoeiradas que emolduravam grosseiramente o exíguo do espaço, a par de formas e calçados por consertar.
“...são tuas, um dia acabo-as e serão tuas...”

As linhas iam e vinhas no ritmo das sovelas a perfurar o couro, as solas batidas e rebatidas na pedra dura. As solas mergulhadas em água, por dias e dias. Pastosas. E depois moldadas ali, ao talhe dos pés.
“...um dia, quando tiver tempo, faço-tas. Nunca terás de andar descalça, que te durarão uma vida. A vida inteira… nem que isso seja a última coisa que faça. Não terás de andar, como eu, a ver “sete-estrelas” e umas botas … nos pés dos outros…"

As linhas iam e vinham no bico das sovelas, no cuspo das mãos, nas mãos magoadas. Pai…
“… um dia serão tuas, quando as acabar. Tem tempo. Agora tenho trabalhos em mãos, que te dão o pão da boca. Mas se tas prometo, faço-tas”
E logo o olhar turvado sem brilho no brilho da lágrima contida:
“nunca lhas cheguei a fazer…”

As linhas de sisal iam e vinham, rangiam na sola; na sola dos pés o frio de tantas horas ali parado. Era Inverno…

“Sete-estrelo e umas botas.”
Naquela manhã o povoado acordou em sobressalto. Francelina, de pouco mais de quarenta anos e oito filhos menores, morrera. Uma forte dor na nuca. Nunca se soube ao certo. As bocas pequenas falaram da “porradas” que o marido lhe "amandava", quando ao fim do dia de jorna, aquecido no pingo da bebida, ajustava as contas com a vida no corpo não menos estafado da mulher. Comadre. Quando enviuvou do primeiro marido e pai das suas duas filhas mais velhas, arrimara-se a ela
“por bem querer, senhora Francelina, serei um pai para as suas filhas, um marido de respeito para vossemecê. Cuido-lhe do nome e das terras, minha comadre. Que fará vossemecê com duas filhas neste fim de mundo onde o diabo perdeu as botas? fraca e pequena como vossemecê, nem com os cântaros há-de poder, que via o senhor meu compadre – que a terra lhe seja leve -, a carregá-los serra a cima… casemos pois, senhora Francelina. Não dê outro padrasto a suas filhas e minhas afilhadas, que sou seu amigo e “mai-lo” delas…”

Casaram. Sem pompa, sem circunstância. Sem o agrado do povo, nem dos pais. Sem a bênção da família da viúva recente e já nubente. Que guardasse distancia e logo tomasse rumo. Mas assim? Em pouco mais de dois anos? Certo que Jorge era parente, conhecia os cantos à casa e nela trabalhava desde que os seus pais o haviam posto fora de portas
“Ora, coisas de rapazolas. Uma má palavra e o meu pai se deu por ofendido. Levantou-me a mão e perdi a cabeça…”
sempre ia dizendo a despeito da sua deserdança:
“... que coma a terra, que por mim hei-de apanhar e chamar de meu, mais que aqueles palmos de terra”.

Achou. Achou a confiança do compadre, os olhares gulosos sobre as terras que eram suas e, porque não dizer?, sobre as ancas de Francelina  - “boa parideira, a minha comadre, tem um par de ancas que a benza Deus” e fome de lhe morder os seios e beber o leite que se lhe escorria “valha-lhe Deus, minha comadre, que esse leite é uma perda”… avançava, entre dentes, em falsa compaixão, sob olhares lascivos.

Tomou-a sua, ocupou o lugar do falecido nas terras e na cama, e, desejoso de lhe fazer prole, acrescentou mais seis aos dois filhos de Francelina.
Esta respondia, no início, às investidas do marido, à fome das ancas e dos seios, com cansaços e pouco deslumbramento - na verdade nunca o amara. Nem pouco nem muito. Temera a solidão, o deserto do casal, o comando das terras. Era seu compadre, mal não lhe havia de fazer, por certo. Sempre era um homem, elas três mulheres…

Amor tivera ao falecido, que a cobria de atenções e mimos. Que a abraçava demoradamente antes de lhe avançar na carne. Que a olhava num olhar maior, quando lhe soltava em adoração de alma e corpo, os cabelos de um ruivo luminoso que a inundavam de luz, e que, sob o manto do céu tangido de Sete-estrelo, sob a bênção do Sete-estrelo, a desnudava por completo e se desnudava a si, para a amar profundamente. Quando, em luar maior, se adoçava o gesto da posse. As noites eram sempre pequenas para os amantes e eles amavam-se…

Detinha-se íntima e introspectiva na Lua que, pressentia, alguma vez teria novamente, que se quedava agora sempre negra lá fora, nos braços dos salgueiros e nas urzes serranas. Amor tivera a quem a aconchegava de beijos antes que, bem amada, dormisse, e, na manhã seguinte a acordava com uma chávena de leite quente. …

“agora” a cama gemia e acordava as crianças. A palha de milho roçagava o vento que se escapulia das telhas vãs. As noites eram longas demais e, não raras vezes, na manhã seguinte, à beira rio, onde lavava as ceroulas de Jorge, os cueiros dos filhos mais novos e as camisas dos mais velhos, as mulheres do povoado lhe viam as marcas enegrecidas da “paixão”.
“ó Francelina, que é lá isso, ó mulher? Tens uma negra nesse braço… e que é isso na boca? Tá a modos que rebentada…”.
“… não, senhor, não é nada … fui eu que me abracei no descuido com um cepo no quintal,  calhando que ia de cabeça no ar …”
De olhos baixos, esfregava primorosamente as fraldas até a pedra se queixar e as mãos enregeladas do inverno se abrirem em sangue. Chupava os dedos para que estancasse, dava por concluída a tarefa, e, de alguidar numa anca, bilha na cabeça, e por último,  a cria mais nova, sua filha de meses, escarranchada na outra anca, avançava a custo o íngreme do monte. Nos entretantos, a sós com Deus e com a sua vida, rezava em contas das próprias lágrimas. Agora era tarde para recuos, como tarde se anunciava o dia já a pôr-se enegrecido no ocaso. Apenas uma luz lá no alto lhe conduzia o andar nos pés mal calçados de solas safas. Perscrutava o Sete-estrelo …

A proximidade do casal já se sentia, no latido dos cães e nas correrias das crianças que, no instinto se acercavam dela. Soltava Rosa da anca, confiava-a a Manuela, uma das mais velhas, gritava o nome de Raimundo, de Carlos e dele, o dono temporário das botas…
Acorriam em algazarra.
“mãe, mãe…”
“rapazes, onde está o gado? Já o arrecadaram? E a lenha? Trazei-me dai uns cavacos que se faz tarde…e o vosso pai já deve andar por perto…”
Manuela ajudava no pendurar da roupa, os rapazes acendiam o lume, os mais novos corriam em torno das suas saias. Por instantes eram uma família feliz. Francelina abraçava os filhos, beijava-os, deitava sobre eles um olhar de esperança – um dia as coisas mudariam. Seriam eles a tomar conta das terras. Jorge afinal não era dono de nada, valha-lhe Deus… Um dia. Um dia … “Sete-estrelo”
“...um dia faço a vossemecê, minha mãe, umas botas de cano grande, por via de não andar de pés no chão, nem com as pernas rotas dos silvados, vossemecê verá, senhora minha mãe… vou ser sapateiro, como o senhor Joaquim do Vale, meu padrinho."
Afagava-lhe o cabelo encaracolado e loiro. Abençoava-o. O seu filho mais velho, daquele casamento desgraçado. E agradecia, contudo. Lindo o seu filho. Grata, olha-o …
“… um dia, filho…”

O latido aflito do cão de guarda mais ao fundo do portão indicava a proximidade do dono. Era ele sempre a primeira vítima. “…é cão duma peste, não te calas nunca!”. Um pontapé ou uma verdascada marcavam o ritmo do discurso iniciático.
As crianças sumiam. Cada um para o seu canto, para as camas improvisadas em cima das arcas do pão, com mantas trapeiras.
Francelina colocava apressada Rosa no berço, com uma chucha de açúcar e vinho. Dormiria. Tinha de ser…
“já comeram os rapazes? É bom que sim, que quero descanso”.

Acenava que sim. Muitas vezes não, mas ninguém dizia nada. Ajoelhava-se aos pés do marido, ajudava-o a tirar as botas. Ele media-lhe o corpo enquanto se levantava rumo ao lume.
As couves fervidas a escaldar o pão. A “tiborna” com o alho. Tudo pronto.

Baixava os olhos, mexia o caldo e servia o seu homem. Depois a sua malga. Comiam em silêncio. Jorge por debaixo da mesa procurava-lhe as pernas. As mãos grosseiras, apertavam os joelhos, arranhavam desapiedadas a pele. Avançavam, subiam, buscavam o sexo. Achavam-o. Penetrava-o desvairado, e, se o sentia húmido da corrida e dos labores, dos cansaços do dia, que fosse, começava ali o chorrilho de difamação “puta, ‘tas com ela aos saltos, não é?, quem é que te comeu hoje, minha puta?”. Levantava-se num ápice, empurrava-a contra a parede, abria a braguilha, soltava o bafo do vinho pelas narinas de besta e possuía-a ali mesmo, sem uma palavra. Mordia-lhe a boca, mordia-lhe o corpo, fazia soltar os seios do corpete alvo, apertando-os impiedosamente. Rodava-lhos os bicos já macerados de vezes outras, mordia, sugava-lhe o leite e o sangue que escorria – ainda amamentava -, . . “puta, agora estás satisfeita? É disto que precisas, não é? Cadela, puta... ”. ...
Por fim largava-a. Voltava para a mesa, comia outra malga de sopa, bebia, raras vezes se lavava. Deitava-se.

Francelina chorava sem um ruído. Arrumava o que havia a arrumar, engraxava de sebo as botas de seu marido, recolhia as roupas caídas junto ao leito e, quando o julgava adormecido ia levar as malgas aos filhos às camas. Finalmente, quando as crianças adormeciam, voltava ao quarto e tomava o seu lugar na borda da cama, no silêncio que a palha lhe permitia.
Noutros dias, naqueles em que ele a tomava e a achava seca, nem por isso as coisas corriam de melhor feição “puta, não queres o teu homem? Gostas mais dos moços de estrebaria é? Ou dos oficiais de cavalariça? – dizia-o em alusão clara ao facto do primeiro marido ser da tropa. -, “morreu, puta, deste cabo dele, não foi? Rebentaste-o debaixo de ti..., agora rebento-te eu, que vais ver o que é um homem.”

Francelina foi a enterrar. O povoado inteiro em torno das crianças. Os padrinhos a adivinhar a falta. Cada um para sua banda. Cada um por si, ou Deus por todos...

Ele seguiu o padrinho, sapateiro de profissão. O pai desceu ao Vale três semanas mais tarde e naquele mesmo dia fez-lhe a trouxa, amarrou-a um pau e deu-lha para a mão.
“… vai, o teu padrinho já te espera. Aprende a profissão. Aqui não há lugar para malandros”.

Tinha onze anos. Olhou pela última vez os cães, olhou a casa deserta das feições de sua mãe. Abraçou. um a um. os irmãos, desceu o monte, procurou o vale e lá a casa do sapateiro… era noite fechada. Guiou-se pelas estrelas “uma, duas, três, quatro … sete-estrelas e umas botas”.
Mãe...m ã e ... mm ãã ee ...”
Apenas o eco: Mãe...m ã e ... mm ãã ee ...” Um homem não chora! Não era homem: chorava...

“ ... um dia hei-de fazer-te as botas, filha. Se não as fiz para ela...”
Nunca a nomeou. Como se as lembranças o matassem dia a dia, como naqueles dias em que o via a ele a possui-la, à sua mãe, ali na cozinha de lenha, quando o julgavam já acamado. Jurou que um dia o matava... mas ela morreu primeiro. A sua mãe. Tinha onze anos e foi ser “maltês”...

Olhava-as agora, castanhas, na cor da terra, da terra que aguardava para sempre: as suas botas (que nunca usara), as dela, que nunca as tivera ...
Abraçava-as devagar. lenta_mente.
O céu em Lua cheia.

Soltou os cabelos cor de fogo, os que herdara dela, e, num gesto insano possuída pelo tempo que não foi seu, jurou à Lua que nenhum homem a possuiria sem que a amasse de verdade, que nenhum homem encostaria um dedo que fosse no seu corpo sem que da sua alma se tivesse primeiro apossado em troca da que lhe tivesse confiado. Magicamente calçou as botas. Perfeitas. À sua medida.

Dizem que é Ninfa do Tejo, que o Sete-estrelo dança nas cores de seu olhar ...
                    Dizem!




___
Notas:
In Wikipédia: “Sete-estrelo”- Trata-se das Plêiades, um grupo de estrelas na constelação do Touro, que consistem de várias estrelas brilhantes e quentes, de espectro predominantemente azul. A névoa azul que as acompanha deve-se à fina poeira interestelar da região em que elas se encontram que reflecte a luz azul das estrelas.
Referências Bíblicas a Sete-estrelo:Livro de : 9-9 [...] quem fez a Urso, o Órion, o Sete-estrelo e as recâmaras do sul"; 38-31 "Ou poderás tu, atar as cadeias do Sete-estrelo, ou soltar os laços de Órion?" ; Livro de Amós: 5-8 "[...] procurai o que faz o Sete-estrelo, e o Órion, e torna a densa treva em manhã e muda o dia em noite; o que chama as águas do mar, e as derrama sobre a terra: o Senhor é o seu nome."

Porque gosto muito

Porque gosto muito
posia, companheira fidelíssima dos meus dias ...

a minha homónima, "Mel"

a minha homónima, "Mel"
A nova tartaruga do Oceanário de Lx.

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Direitos de Autor

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